Abin Paralela monitorou por engano homônimo de Moraes, diz PF

A Polícia Federal identificou que a estrutura paralela montada dentro da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) durante o governo anterior monitorou indevidamente um cidadão comum que possui o mesmo nome do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. A informação consta em relatório das investigações que apuram o uso do software de vigilância FirstMile por integrantes do órgão.

Segundo fontes com acesso ao inquérito, o alvo original seria o próprio magistrado, mas falhas no processo de coleta de inteligência levaram ao cadastro equivocado de um homônimo. O caso expõe a profundidade da atuação do grupo suspeito de monitorar adversários políticos, jornalistas e membros do Judiciário sem autorização judicial.

O que foi a Abin Paralela

O termo "Abin Paralela" passou a ser utilizado publicamente após a revelação de que servidores da Agência Brasileira de Inteligência teriam montado um esquema não oficial de vigilância. As investigações indicam que o grupo utilizava ferramentas de geolocalização e o software israelense FirstMile, capaz de interceptar dados de dispositivos móveis, sem o devido controle ou autorização judicial.

O esquema teria operado entre 2019 e 2022, período em que a Abin foi comandada por Alexandre Ramagem, atual deputado federal. As suspeitas incluem a utilização dos recursos do órgão para beneficiar politicamente o então presidente Jair Bolsonaro e sua família, além de perseguir desafetos do governo.

Em depoimento à Polícia Federal, ex-integrantes da agência relataram que as ordens partiam diretamente da cúpula da Abin, sem passar pelos canais formais de inteligência. As informações coletadas eram repassadas de forma paralela ao gabinete presidencial, o que configura, na avaliação dos investigadores, desvio de finalidade e possível crime de responsabilidade.

O monitoramento por engano

O caso do homônimo de Moraes é considerado pelos investigadores um dos exemplos mais emblemáticos da falta de controle do esquema. Durante a operação de monitoramento, o sistema teria capturado dados de um cidadão comum que compartilha o mesmo nome do ministro — Alexandre de Moraes — mas sem qualquer relação com o magistrado ou com atividades políticas.

A falha foi detectada quando a equipe da Polícia Federal analisou os relatórios gerados pela Abin Paralela e percebeu inconsistências nos dados coletados. O homônimo, que trabalha com comércio em São Paulo, teve sua localização rastreada e comunicações interceptadas por meses sem qualquer justificativa legal.

O erro só foi descoberto após a quebra dos sigilos e a comparação de dados cadastrais. O cidadão monitorado não possuía vínculos com o STF, com a política ou com qualquer investigação em curso. Segundo a PF, ele foi incluído no alvo por uma combinação de homonímia e falha na validação dos dados de inteligência.

"Isso demonstra o caráter indiscriminado da vigilância. Não se tratava de um monitoramento preciso, direcionado a alvos legítimos. Era uma coleta em massa, com critérios frágeis e sem supervisão", disse um delegado envolvido no caso sob condição de anonimato.

As investigações da Polícia Federal

A Polícia Federal deflagrou diversas fases da Operação Vigilância Aproximada para apurar o esquema. Foram cumpridos mandados de busca e apreensão em endereços ligados a ex-servidores da Abin, além de agentes públicos que teriam atuado como intermediários entre o órgão de inteligência e o Palácio do Planalto.

Os investigadores também apuram o pagamento de vantagens indevidas a funcionários da agência que participaram do esquema. Documentos apreendidos indicam que o grupo mantinha uma estrutura paralela de contabilidade para custear operações fora dos canais oficiais.

A Abin, por meio de nota, informou que colabora integralmente com as investigações e que já instaurou procedimentos administrativos internos para apurar as condutas. A atual direção da agência afirma ter adotado medidas para reforçar os controles internos e evitar o uso indevido dos sistemas de inteligência.

A Polícia Federal também investiga outros casos de monitoramento ilegal, incluindo a vigilância de jornalistas, advogados e defensores de direitos humanos. Até o momento, mais de dez pessoas foram indiciadas por crimes como violação de sigilo funcional, interceptação ilegal de comunicações e associação criminosa.

Repercussão no STF e no meio jurídico

O caso do homônimo monitorado por engano gerou forte repercussão no Supremo Tribunal Federal. O ministro Alexandre de Moraes, relator do inquérito das milícias digitais e de outras investigações sensíveis, tem acompanhado de perto os desdobramentos das apurações sobre a Abin Paralela.

Em decisões recentes, Moraes autorizou a quebra de sigilos e a oitiva de testemunhas ligadas ao caso. Especialistas em direito constitucional apontam que a revelação reforça a necessidade de um controle externo mais rigoroso sobre os órgãos de inteligência no Brasil.

A Ordem dos Advogados do Brasil também se manifestou sobre o episódio. Em nota, a OAB defendeu a criação de uma comissão externa de fiscalização da Abin, com participação de representantes da sociedade civil, do Ministério Público e do Judiciário.

Impactos políticos e legais

O caso da Abin Paralela e o monitoramento indevido de homônimos têm implicações políticas profundas. Parlamentares da oposição já protocolaram requerimentos de convocação de ex-autoridades do governo anterior para prestar esclarecimentos no Congresso Nacional.

Uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito foi sugerida para investigar o uso da máquina pública para fins de vigilância ilegal. Líderes partidários avaliam que as revelações podem mudar o equilíbrio político em Brasília, especialmente em um ano eleitoral.

No âmbito legal, os indiciados podem responder por crimes que preveem penas de até 12 anos de reclusão, incluindo violação de sigilo funcional, interceptação ilegal e peculato. A PGR (Procuradoria-Geral da República) também estuda a possibilidade de denunciar os envolvidos por atos de improbidade administrativa.

Lições e alertas para a sociedade

O episódio do homônimo monitorado por engano escancara os riscos da vigilância sem controle. A ausência de mecanismos eficazes de supervisão permitiu que cidadãos comuns fossem alvo de espionagem estatal sem qualquer justificativa legal.

Especialistas em segurança pública e direitos digitais alertam que o Brasil precisa avançar na regulamentação do uso de tecnologias de vigilância por parte do Estado. A criação de uma lei específica para a proteção de dados de inteligência, com salvaguardas claras contra abusos, é apontada como uma das principais necessidades após a revelação do escândalo.

Organizações da sociedade civil também defendem que as vítimas de monitoramento ilegal sejam indenizadas pelo Estado. A Defensoria Pública da União já estuda a possibilidade de ingressar com ações coletivas em favor dos cidadãos que tiveram seus direitos violados.

Pontos centrais do caso

  • A Abin Paralela operou entre 2019 e 2022 com uso de software espião israelense FirstMile
  • Um cidadão comum homônimo de Alexandre de Moraes foi monitorado por engano
  • A Polícia Federal identificou a falha durante a análise de relatórios internos
  • Mais de dez pessoas foram indiciadas até o momento
  • O caso está sob análise do Supremo Tribunal Federal
  • Organizações cobram controle externo e regulação da atividade de inteligência

Perguntas frequentes

O que é a Abin Paralela?
É como ficou conhecida a estrutura não oficial montada dentro da Agência Brasileira de Inteligência, durante o governo anterior, para realizar vigilância sem autorização judicial de adversários políticos, jornalistas, ministros do STF e outros alvos.

O que a Polícia Federal descobriu sobre o homônimo?
A PF constatou que o sistema de vigilância monitorou por meses um cidadão comum que possui o mesmo nome do ministro Alexandre de Moraes. Não havia qualquer relação do homem com a política ou com investigações.

Qual software foi usado na vigilância?
O principal instrumento de espionagem era o FirstMile, um software israelense capaz de interceptar dados de localização e comunicações de dispositivos móveis em tempo real.

Quais as consequências jurídicas do caso?
Os envolvidos podem responder por violação de sigilo funcional, interceptação ilegal de comunicações, associação criminosa e improbidade administrativa, com penas que podem chegar a 12 anos de prisão.

O que está sendo feito para evitar novos casos?
A atual direção da Abin afirma ter implementado novos controles internos. No Congresso, tramitam propostas de criação de mecanismos externos de fiscalização da agência e de regulamentação do uso de ferramentas de vigilância pelo Estado.

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