Acnur: mundo tem mais de 123 milhões de pessoas deslocadas à força

O mais recente relatório global da Agência da ONU para Refugiados (Acnur) revela que o número de pessoas deslocadas à força no mundo ultrapassou 123 milhões em 2024, impulsionado por conflitos, perseguições e violações de direitos humanos.

O relatório "Global Trends" da Acnur, divulgado em junho de 2024, mostra que o deslocamento forçado continua a aumentar pelo 12º ano consecutivo. O total de 123 milhões de pessoas inclui refugiados, requerentes de asilo, deslocados internos e outras pessoas em necessidade de proteção internacional. O número representa um aumento de cerca de 5 milhões em relação ao ano anterior, refletindo a escalada de crises em várias regiões.

O relatório da Acnur em números

De acordo com o levantamento, existem aproximadamente 43,4 milhões de refugiados, 6,9 milhões de requerentes de asilo e 68,3 milhões de deslocados internos. Cerca de 75% dos refugiados estão acolhidos em países de baixa e média renda, e 69% deles vivem em países vizinhos aos seus locais de origem. O relatório também destaca que 41% dos deslocados são crianças, muitas delas separadas de suas famílias e expostas a riscos como trabalho infantil, recrutamento forçado e violência sexual.

Países como Sudão, Síria, Ucrânia, Afeganistão e Venezuela continuam a ser as principais fontes de refugiados. Juntos, esses países representam mais da metade do total de pessoas sob mandato da Acnur. O Brasil, por sua vez, acolhe atualmente cerca de 600 mil refugiados e migrantes, principalmente venezuelanos, haitianos e sírios.

Conflitos que mais contribuíram para o deslocamento

O relatório aponta que os conflitos armados e a violência generalizada são as principais causas do deslocamento forçado. Entre os conflitos que mais geraram novos deslocamentos em 2023 e 2024 estão:

  • Sudão: A guerra civil iniciada em abril de 2023 forçou mais de 9 milhões de pessoas a deixarem suas casas, tornando o Sudão o país com o maior número de deslocados internos do mundo.
  • Faixa de Gaza: A escalada do conflito entre Israel e Hamas em outubro de 2023 provocou o deslocamento de cerca de 1,7 milhão de pessoas dentro do território palestino.
  • Ucrânia: A guerra em curso desde 2022 já deslocou internamente cerca de 3,7 milhões de pessoas, além de forçar milhões a buscarem refúgio em outros países.
  • Myanmar: O agravamento do conflito civil após o golpe militar de 2021 levou ao deslocamento de mais de 2 milhões de pessoas, especialmente da etnia rohingya.
  • República Democrática do Congo: Os confrontos entre grupos armados continuam a expulsar populações inteiras de suas comunidades, com mais de 6 milhões de deslocados internos.

Regiões mais impactadas

O Oriente Médio e o Norte da África concentram a maior parcela de deslocados forçados, seguidos pela África Subsaariana e pelo Sul da Ásia. Na América Latina, o deslocamento também cresce de forma expressiva, impulsionado pela violência de gangues, crises políticas e desastres naturais.

Na América do Sul, a crise na Venezuela já gerou mais de 7 milhões de refugiados e migrantes, a maioria acolhida em países como Colômbia, Peru, Chile e Brasil. O Haiti enfrenta uma grave crise humanitária, com mais de 300 mil deslocados internos devido à violência de gangues. A Colômbia, mesmo em processo de paz, ainda tem cerca de 4,7 milhões de deslocados internos remanescentes do conflito armado.

A Europa, embora receba fluxos significativos de refugiados da Ucrânia e do Oriente Médio, também vê o aumento de requerentes de asilo de países africanos e asiáticos. O continente africano, por sua vez, acolhe a maior parte dos refugiados do mundo, muitas vezes em campos superlotados e com recursos escassos.

Desafios humanitários e resposta internacional

A Acnur e organizações parceiras enfrentam dificuldades crescentes para proteger e assistir os deslocados. O financiamento humanitário global está aquém das necessidades: em 2023, apenas 40% dos recursos solicitados pela ONU foram efetivamente entregues. Essa lacuna compromete o fornecimento de abrigo, alimentação, água potável, saúde e educação para milhões de pessoas.

Além da falta de recursos, as barreiras políticas e burocráticas dificultam o acesso humanitário a zonas de conflito. A proteção dos refugiados e deslocados internos também enfrenta desafios como a xenofobia, a criminalização da migração e a falta de vontade política para buscar soluções duradouras.

O relatório da Acnur enfatiza a importância de soluções que vão além da assistência emergencial: repatriação voluntária e segura, integração local nos países de acolhimento e reassentamento em terceiros países são as três soluções tradicionais. No entanto, o número de refugiados que consegue retornar ou ser reassentado tem caído nos últimos anos, o que prolonga o sofrimento e a incerteza.

Perguntas frequentes (FAQ)

1. Qual a diferença entre refugiado e deslocado interno?

Refugiados são pessoas que cruzam uma fronteira internacional para escapar de perseguições, conflitos ou violência generalizada. Deslocados internos permanecem dentro do próprio país, mas são forçados a abandonar suas casas pelas mesmas razões, sem cruzar uma fronteira.

2. Como a Acnur define "pessoas deslocadas à força"?

O termo abrange refugiados, requerentes de asilo, deslocados internos e apátridas que foram forçados a fugir de suas residências devido a conflitos armados, violência generalizada, violações de direitos humanos ou desastres naturais.

3. O que pode ser feito para reduzir o deslocamento forçado?

A prevenção de conflitos, a promoção da paz, o fortalecimento do Estado de Direito e o respeito aos direitos humanos são fundamentais. A comunidade internacional precisa investir em desenvolvimento sustentável, mediação de conflitos e proteção de populações vulneráveis, além de garantir assistência adequada aos deslocados.

4. O Brasil recebe refugiados? Como funciona o acolhimento?

Sim, o Brasil é signatário da Convenção de 1951 sobre Refugiados e possui uma lei de refúgio (Lei 9.474/97) que estabelece um processo de solicitação de refúgio e a integração local. O país tem programas de interiorização e acolhimento, especialmente para venezuelanos, e concede vistos humanitários para haitianos e sírios.

5. Onde posso encontrar mais informações sobre o relatório da Acnur?

O relatório completo "Global Trends 2024" está disponível no site oficial da Acnur (unhcr.org). No Zoom News, acompanhe a categoria Internacional para análises e notícias sobre deslocamento forçado e crises humanitárias.

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