Ato no Rio defende rompimento do Brics com Israel

Cerca de 500 pessoas participaram na tarde desta quinta-feira (10) de uma manifestação na Cinelândia, centro do Rio de Janeiro, que defende o rompimento imediato das relações diplomáticas e comerciais entre os países do Brics e Israel. Organizado por movimentos sociais, entidades sindicais, coletivos universitários e organizações de direitos humanos, o ato busca pressionar o governo brasileiro a levar a proposta para a próxima cúpula do bloco, prevista para ocorrer em agosto.

Com faixas e cartazes em português, árabe e inglês — como “Brics pela Paz”, “Fora Israel do Brics” e “Palestina Livre” — os manifestantes caminharam em frente ao Teatro Municipal e ocuparam parte da praça. Líderes de centrais sindicais, como a CUT e a UNE, discursaram ao lado de professores de relações internacionais da UFRJ e representantes da comunidade palestina no Brasil. O ato ocorreu de forma pacífica e foi acompanhado por uma comissão de parlamentares federais do PSOL e do PT.

O contexto do Brics e suas posições recentes

O Brics — grupo formado originalmente por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — passou por uma importante expansão em 2024 e 2025, incorporando Irã, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Egito. Com a entrada de novos membros do Oriente Médio e da África, o bloco ganhou ainda mais relevância geopolítica, mas também passou a refletir posições divergentes sobre conflitos regionais.

Nos últimos anos, a questão palestina e a guerra na Faixa de Gaza tornaram-se pautas recorrentes nas reuniões ministeriais do Brics. Enquanto China e Rússia mantêm discursos críticos a Israel, Índia e Emirados Árabes Unidos preservam laços comerciais e diplomáticos estreitos com o país. O Brasil, sob o governo Lula, tem procurado equilibrar uma posição de crítica à ocupação israelense nos territórios palestinos com a manutenção de canais de diálogo. O ato no Rio cobra que essa posição seja mais incisiva.

Reivindicações do ato

Os organizadores entregaram uma carta aberta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva com cinco pontos principais:

  • Suspensão imediata de todos os acordos comerciais e militares dos países do Brics com Israel.
  • Posicionamento oficial do Brasil na ONU e nos fóruns multilaterais contra a ocupação e anexação de territórios palestinos.
  • Inclusão do tema "Rompimento com Israel" na pauta oficial da cúpula do Brics de 2025.
  • Criação de um grupo de trabalho no âmbito do Brics para monitorar violações do direito internacional e crimes de guerra na Palestina.
  • Ampliação do apoio humanitário e financeiro à Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados Palestinianos (UNRWA).

Argumentos dos organizadores

Para a professora de direito internacional Ana Clara Souza, uma das oradoras do ato, “o Brics não pode fechar os olhos para as violações sistemáticas de direitos humanos cometidas por Israel contra o povo palestino, incluindo bombardeios a escolas e hospitais, expansão de assentamentos ilegais e uso de força desproporcional contra civis”. Ela destacou que o bloco tem a obrigação ética e política de agir, já que seus membros representam mais de 40% da população mundial.

Representantes de movimentos negros também discursaram, associando a luta palestina às pautas antirracistas e anticoloniais. A ativista Maria da Penha Ferreira afirmou que “a Palestina é uma causa de todos os povos oprimidos e o Brics, como bloco de nações em desenvolvimento, deve liderar a defesa da autodeterminação dos povos”.

Reações no governo e no Congresso

O Ministério das Relações Exteriores ainda não se manifestou oficialmente sobre o ato, mas interlocutores ouvidos reservadamente indicam que a pasta acompanha com atenção o movimento, especialmente por envolver parlamentares da base aliada. Nos bastidores, diplomatas avaliam que uma ruptura total com Israel dentro do Brics seria difícil de aprovar, dado o veto de membros como Índia e Arábia Saudita, mas que é possível avançar em sanções seletivas e declarações conjuntas mais duras.

Deputados federais do PT, PCdoB e PSOL manifestaram apoio público ao ato. Já setores ligados ao agronegócio, à indústria de defesa e à comunidade empresarial que mantêm negócios com Israel demonstram preocupação com possíveis retaliações comerciais. O debate promete aquecer as discussões no Congresso sobre o papel do Brasil no cenário internacional.

Posição de Israel e de outros membros do Brics

O governo israelense, por meio de sua embaixada em Brasília, já havia se manifestado em abril considerando “inaceitáveis” as críticas do Brasil. Em relação ao Brics, Tel-Alem vê com preocupação a entrada de países como Irã — que não reconhece Israel — no bloco. A Arábia Saudita, que vinha ensaiando um processo de normalização com Israel antes da guerra, manteve contato diplomático, mas adotou um discurso mais distante após o conflito em Gaza.

Analistas apontam que o Brics não possui um mecanismo formal de expulsão de parceiros, já que Israel não é membro do bloco, mas mantém acordos bilaterais com vários dos países-membros. A demanda do ato, portanto, é pela suspensão desses acordos e pelo isolamento diplomático de Israel dentro da esfera de influência do grupo.

Perguntas frequentes sobre o tema

O que é o Brics? O Brics é um agrupamento informal de países emergentes criado em 2009 com o objetivo de fortalecer a cooperação econômica, financeira e política entre seus membros. Atualmente reúne Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Irã, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Egito. O bloco representa cerca de 42% da população mundial e 30% do PIB global.

Por que o ato pede o rompimento com Israel? Os organizadores argumentam que Israel descumpre sistematicamente resoluções da ONU, pratica violações graves de direitos humanos contra palestinos e mantém uma política de ocupação expansionista. Para eles, o Brics, enquanto bloco de países que historicamente apoiam a descolonização e o direito internacional, deve adotar uma postura firme e romper laços comerciais e diplomáticos com Israel como forma de pressão por mudanças.

O Brasil já tomou medidas semelhantes? O Brasil já condenou Israel em fóruns multilaterais, retirou seu embaixador de Tel-Aviv em 2014 (gesto que foi revertido depois) e criticou publicamente as ofensivas israelenses em Gaza. No entanto, nunca houve uma ruptura formal de relações ou a suspensão de acordos comerciais. O ato busca catalisar uma posição mais forte e coordenada dentro do Brics.

Qual a posição dos novos membros do Brics sobre Israel? O Irã não reconhece Israel e mantém uma posição hostil. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, por outro lado, têm interesses econômicos e de segurança com Israel. A Etiópia e o Egito mantêm relações diplomáticas e acordos pragmáticos. Essa diversidade torna o consenso difícil, mas a pressão popular pode influenciar a construção de uma posição mínima comum.

Haverá novos protestos? Sim. Os organizadores anunciaram que estão sendo planejadas manifestações semelhantes em São Paulo, Brasília, Belo Horizonte e Porto Alegre nas próximas semanas. O objetivo é manter a pressão até a cúpula do Brics e estimular o debate público sobre o tema.

O ato na Cinelândia encerrou com a leitura da carta aberta e um minuto de silêncio em memória das vítimas do conflito. A comissão organizadora deve entregar o documento ao Palácio do Planalto nos próximos dias, acompanhada por uma delegação de parlamentares e representantes da sociedade civil.