Capes: 96 brasileiros desistiram de doutorado sanduíche nos EUA

A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) registrou que 96 estudantes brasileiros abandonaram o programa de doutorado sanduíche nos Estados Unidos nos últimos anos. O dado acende um alerta sobre os desafios enfrentados por pesquisadores brasileiros em intercâmbio no exterior e levanta questões sobre o suporte oferecido antes e durante a experiência.

O doutorado sanduíche é uma modalidade que permite ao aluno de doutorado realizar parte de sua pesquisa em uma instituição estrangeira, com bolsa da Capes ou de outras agências. A oportunidade é vista como um diferencial na formação acadêmica, proporcionando contato com novas metodologias, redes de pesquisa e infraestrutura laboratorial. No entanto, a taxa de desistência observada entre os brasileiros nos EUA sugere que barreiras significativas precisam ser enfrentadas.

O cenário do doutorado sanduíche

O programa de doutorado sanduíche é uma das principais ferramentas de internacionalização da pós-graduação brasileira. Por meio de bolsas como as do Programa Institucional de Doutorado Sanduíche no Exterior (PDSE), alunos passam entre seis e doze meses em universidades estrangeiras. Os Estados Unidos são um dos destinos mais procurados, devido à excelência acadêmica e à produção científica de ponta.

Entretanto, a saída precoce de 96 bolsistas representa uma perda significativa de investimento público e de capital intelectual. Cada bolsa envolve custos com passagens, seguros, taxas acadêmicas e auxílio financeiro, além do tempo e dedicação do pesquisador.

Principais motivos apontados para a desistência

Embora não haja um levantamento oficial detalhado da Capes sobre as causas específicas, relatos de ex-bolsistas e estudos acadêmicos apontam fatores recorrentes que contribuem para a evasão:

  • Dificuldades de adaptação cultural e linguística: a barreira do idioma e diferenças culturais podem gerar isolamento e prejudicar o desempenho acadêmico.
  • Problemas de saúde mental: ansiedade, depressão e estresse são comuns em ambientes de alta pressão, agravados pela distância da rede de apoio.
  • Diferenças metodológicas e acadêmicas: a expectativa de produtividade, o sistema de avaliação e a relação com o orientador estrangeiro podem ser muito distintos do que o aluno estava acostumado no Brasil.
  • Dificuldades financeiras: embora a bolsa cubra custos básicos, o alto custo de vida em cidades americanas pode obrigar o aluno a complementar a renda ou reduzir o tempo dedicado à pesquisa.
  • Questões familiares e pessoais: separação da família, problemas de saúde de parentes ou adaptação do cônjuge e filhos são motivos frequentes para o retorno antecipado.
  • Falta de suporte institucional: alguns alunos relatam que a universidade de origem não oferece acompanhamento adequado durante o período sanduíche, deixando-os sem orientação e suporte logístico.

Esses fatores, isolados ou combinados, ajudam a explicar por que 96 dos brasileiros que iniciaram o doutorado sanduíche nos EUA não concluíram o estágio.

Impactos para a formação acadêmica e para o Brasil

A desistência não representa apenas um desperdício de recursos financeiros. Ela também afeta o cronograma do doutorado do aluno, que muitas vezes precisa refazer o planejamento da pesquisa ou buscar novas alternativas de financiamento. Para as instituições brasileiras, a perda de conexões internacionais pode reduzir futuras colaborações e publicações conjuntas.

No âmbito do sistema de pós-graduação, o abandono precoce reduz a eficácia dos programas de internacionalização e compromete a meta de formar pesquisadores com experiência global. O Brasil investe anualmente milhões de reais em bolsas de doutorado sanduíche, e cada desistência representa um retorno menor desse investimento.

O papel da Capes e as possíveis medidas

A Capes, ciente do problema, vem buscando aprimorar seus programas. Entre as iniciativas possíveis estão a oferta de cursos preparatórios de idioma e cultura, o fortalecimento da rede de apoio psicológico a distância, e a criação de mecanismos de tutoria com ex-bolsistas que já passaram pela experiência. A agência também pode revisar os critérios de seleção para identificar candidatos com perfil mais adequado ao intercâmbio de longa duração.

Algumas universidades brasileiras já implementam programas de acolhimento, como contato com orientadores no exterior antes da partida, planejamento conjunto das atividades e reuniões periódicas de monitoramento. Essas práticas podem ser expandidas como requisito para a concessão da bolsa.

Desafios e perspectivas

O cenário de desistências não deve desestimular a busca pelo doutorado sanduíche, mas sim apontar a necessidade de melhor preparo e acompanhamento. A experiência internacional continua sendo um diferencial importante para a carreira acadêmica, e muitos alunos que superam as dificuldades iniciais colhem frutos significativos, como publicações de alto impacto e redes de colaboração duradouras.

Para reduzir a evasão, é essencial que a Capes, as universidades e os próprios alunos trabalhem em conjunto. Informações claras sobre os desafios, suporte emocional e financeiro, e uma rede de contatos podem fazer a diferença entre o abandono e o sucesso.

Perguntas frequentes

O que é doutorado sanduíche?

É uma modalidade de bolsa em que o estudante de doutorado realiza um período de pesquisa em uma instituição estrangeira, geralmente de seis a doze meses, mantendo vínculo com sua universidade de origem no Brasil.

Por que 96 brasileiros desistiram do programa nos EUA?

As causas são múltiplas, incluindo dificuldades de adaptação, problemas financeiros, questões de saúde mental, diferenças acadêmicas e falta de suporte institucional.

O que a Capes pode fazer para reduzir a desistência?

Oferecer treinamento pré-embarque em idioma e cultura, criar programas de mentoria, reforçar o acompanhamento psicológico, e exigir planos de contingência das universidades de origem.

O doutorado sanduíche ainda vale a pena?

Sim, a experiência internacional agrega valor à formação científica, amplia redes de contato e melhora a qualidade da pesquisa. O importante é que o aluno esteja bem preparado e amparado para enfrentar os desafios.

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