Combate à fome precisa de sensibilidade e política de Estado, diz Lula

Em discurso nesta semana, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o combate à fome no Brasil não pode ser tratado como uma pauta passageira: ele exige sensibilidade social e, principalmente, uma política de Estado permanente, que vá além de governos. A declaração reacende o debate sobre segurança alimentar e as estratégias necessárias para tirar o país do Mapa da Fome novamente.

O cenário da fome no Brasil

Dados recentes da Rede Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional) indicam que cerca de 33 milhões de brasileiros não têm o que comer diariamente, e mais de 60% da população convive com algum grau de insegurança alimentar — que vai desde a preocupação com a falta de alimentos até a privação efetiva de refeições. O país, que em 2014 havia saído do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU), voltou a figurar entre as nações com grave carência alimentar a partir de 2018.

Especialistas apontam que o desemprego, a inflação dos alimentos básicos, o desmonte de programas sociais e a redução do investimento em agricultura familiar contribuíram para esse retrocesso. A pandemia de Covid-19 agravou ainda mais a situação, empurrando milhões de pessoas para a vulnerabilidade. Nesse contexto, a fome deixou de ser um problema residual para se tornar uma emergência nacional.

O discurso de Lula: sensibilidade e continuidade

Em evento realizado em São Paulo com movimentos sociais, especialistas em nutrição e representantes de entidades de combate à fome, Lula destacou que o enfrentamento do problema não pode se resumir a ações pontuais ou a programas de um único governo. "A fome é uma chaga que exige um olhar humano. Não adianta tratar os números friamente; por trás de cada estatística há uma família, uma criança que não dormiu alimentada. Por isso, o combate à fome precisa, antes de tudo, de sensibilidade", afirmou.

O ex-presidente também defendeu que o Brasil adote uma política de Estado para a segurança alimentar, com orçamento garantido, metas plurianuais e articulação entre União, estados e municípios. "Não podemos continuar começando do zero a cada quatro ou oito anos. É preciso que o combate à fome seja uma agenda de Estado, independentemente de quem está no Palácio do Planalto", completou.

Políticas públicas mencionadas por Lula

Lula listou uma série de iniciativas que, em sua avaliação, devem ser retomadas e fortalecidas:

  • Bolsa Família: recomposição do valor médio do benefício e ampliação da cobertura para famílias em situação de extrema pobreza, com condicionalidades reforçadas nas áreas de saúde e educação.
  • Programa de Aquisição de Alimentos (PAA): retomada do programa que compra alimentos da agricultura familiar e os destina a escolas, creches, hospitais e bancos de alimentos.
  • Alimentação escolar: aumento do repasse do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e priorização da compra de alimentos orgânicos e de produtores locais.
  • Agricultura familiar: ampliação do crédito rural, assistência técnica e fortalecimento dos mercados institucionais.
  • Restaurantes populares e cozinhas comunitárias: retomada e expansão desses equipamentos públicos de alimentação.

O ex-presidente também defendeu a criação de um ministério ou secretaria extraordinária com status de política de Estado para coordenar as ações de combate à fome, proposta que gerou intenso debate entre aliados e oposição.

Repercussões entre lideranças e especialistas

As declarações de Lula foram recebidas com apoio de movimentos sociais ligados à luta contra a fome. A Articulação Nacional de Combate à Fome (ANCF) emitiu nota elogiando a ênfase na continuidade das políticas públicas. "A fome não é um problema de direita ou esquerda, é uma questão de dignidade humana. Apoiamos qualquer iniciativa que coloque a segurança alimentar como prioridade de Estado", disse a presidente da entidade, Maria do Socorro Silva.

Por outro lado, integrantes da oposição criticaram a gestão petista anterior e apontaram que o próprio PT, durante os mandatos de Dilma Rousseff, teria contribuído para o desequilíbrio fiscal que agravou a crise. No entanto, a maioria dos parlamentares ouvidos concordou que a fome precisa ser enfrentada de forma estrutural. O deputado federal Carlos Sampaio (PSDB-SP) afirmou: "Independentemente de quem seja o autor da proposta, a fome é inaceitável. Precisamos de um pacto nacional pela segurança alimentar".

Desafios e perspectivas para a segurança alimentar

Especialistas ouvidos pelo Zoom News apontam que, para além da vontade política, o Brasil precisa de um plano plurianual com fontes de financiamento estáveis. A inflação dos alimentos, a desigualdade regional e a falta de infraestrutura de armazenamento e distribuição são entraves adicionais. Segundo o economista e pesquisador da USP, José Carlos de Oliveira, "a segurança alimentar não se resolve apenas com transferência de renda; é preciso investir em produção local, logística e educação nutricional".

Outro ponto crítico é a necessidade de integração entre as políticas de combate à fome e as de desenvolvimento rural, reforma agrária e sustentabilidade ambiental. O Brasil possui uma das maiores produções de alimentos do mundo, mas grande parte da população ainda não tem acesso a eles. "O paradoxo brasileiro é que produzimos comida suficiente para alimentar toda a população, mas o acesso é profundamente desigual", ressalta a nutricionista Clara Araújo, da Fiocruz.

Principais pontos do discurso de Lula

  • Combate à fome deve ser política de Estado, não de governo
  • É preciso sensibilidade para tratar do tema
  • Retomada do Bolsa Família e do PAA são fundamentais
  • Brasil precisa sair novamente do Mapa da Fome
  • União de esforços entre governo, sociedade e setor privado
  • Criação de ministério ou secretaria extraordinária para coordenar ações

Perguntas frequentes sobre o combate à fome

Por que o combate à fome precisa de sensibilidade?

A fome afeta diretamente a dignidade humana. A sensibilidade é necessária para compreender as múltiplas dimensões do problema — nutricional, social, psicológica — e para formular políticas que respeitem as realidades locais. Sem sensibilidade, corre-se o risco de adotar soluções genéricas que não alcançam os mais vulneráveis.

O que é uma política de Estado?

É uma política pública que transcende governos, com orçamento garantido, marco legal e continuidade administrativa. Exemplos no Brasil incluem o Sistema Único de Saúde (SUS) e o Bolsa Família em certos períodos. Uma política de Estado de combate à fome teria metas plurianuais e não sofreria interrupções a cada troca de governo.

O Brasil já venceu a fome antes?

Sim. Em 2014, o Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU graças a políticas como Bolsa Família, valorização do salário mínimo, expansão da agricultura familiar e programas de transferência de renda. A crise econômica e política posterior reverteu parte desses avanços, e o país voltou a apresentar níveis elevados de insegurança alimentar a partir de 2018.

O que pode ser feito agora?

Retomar e fortalecer programas existentes, garantir orçamento para segurança alimentar, promover a reforma agrária, apoiar a agricultura familiar, articular ações entre União, estados e municípios, e criar um marco legal que assegure a continuidade das políticas, independentemente de alternância de governo.

Como a sociedade pode participar?

A sociedade pode se envolver por meio de doações a bancos de alimentos, participação em conselhos de segurança alimentar, apoio a feiras da agricultura familiar, cobrança de políticas públicas dos representantes eleitos e engajamento em campanhas de combate ao desperdício.

Qual o papel da agricultura familiar no combate à fome?

A agricultura familiar é responsável por grande parte dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros, especialmente hortaliças, frutas, legumes e produtos da agroecologia. Programas como o PAA e o PNAE fortalecem esse setor e garantem alimentos frescos e nutritivos para escolas e populações vulneráveis.

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