O corpo de uma ativista trans assassinada a tiros no bairro da Lapa, região central do Rio de Janeiro, será trasladado para Belém do Pará, onde o sepultamento ocorrerá neste sábado. A vítima, conhecida por sua militância em defesa dos direitos da população LGBTQIA+, atuava em projetos de inclusão social na capital fluminense e era referência entre jovens trans em situação de vulnerabilidade.
O crime ocorreu por volta das 23h de segunda-feira, na Rua do Lavradio, um dos pontos mais movimentados da Lapa, área conhecida pela vida noturna e pela concentração de bares e casas de show. De acordo com testemunhas, a ativista foi abordada por um homem que, após uma breve discussão, efetuou vários disparos. Ela morreu ainda no local. O atirador fugiu e até o momento não foi identificado. A Polícia Civil do Rio de Janeiro instaurou inquérito e a Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) está à frente das investigações. Câmeras de segurança da região foram recolhidas para auxiliar na identificação do suspeito, e um retrato falado deve ser divulgado nos próximos dias. A motivação ainda é desconhecida, mas a polícia não descarta a hipótese de LGBTfobia.
Quem era a ativista
Natural de Belém do Pará, a jovem de 28 anos vivia no Rio de Janeiro há cinco anos. Trabalhava como educadora social em um projeto voltado para jovens trans em situação de vulnerabilidade, oferecendo acolhimento, orientação profissional e acesso a direitos básicos. Também participava de conselhos municipais de políticas LGBTQIA+ e era presença constante em manifestações por direitos civis. Em suas redes sociais, denunciava casos de violência e preconceito, e compartilhava informações sobre saúde e cidadania para a comunidade trans.
Amigos e colegas de militância a descrevem como “uma mulher corajosa, que não se calava diante das injustiças”. Uma amiga próxima, que preferiu não se identificar, relatou ao Zoom News que a ativista sonhava em abrir um centro de acolhimento para pessoas trans no Rio, inspirada por iniciativas bem-sucedidas em outros estados. “Ela era luz na vida de muitas pessoas. Não merecia ter a vida interrompida de forma tão brutal”, afirmou.
O assassinato gerou comoção entre ativistas de todo o país. Diversas organizações de direitos humanos emitiram notas de repúdio. A Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) classificou o assassinato como “mais um episódio de violência motivada por ódio” e cobrou celeridade nas investigações e punição exemplar. A Anistia Internacional Brasil também se manifestou, pedindo que o Estado brasileiro adote medidas efetivas para proteger a população LGBTQIA+.
Repercussão e mobilização
Na noite de quinta-feira, um ato em memória da ativista foi realizado na Escadaria da Lapa, com centenas de pessoas vestidas de branco. Durante a manifestação, foi lida uma carta aberta pedindo justiça, e balões brancos foram soltos em sua homenagem. Artistas e influenciadores digitais compartilharam a hashtag #JustiçaPara (nome da ativista) nas redes sociais, ampliando a cobrança por respostas.
Vereadores e deputados estaduais ligados à causa LGBTQIA+ também se pronunciaram. A Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) anunciou que acompanhará as investigações e cobrará transparência da Polícia Civil. O governador do estado, em nota oficial, afirmou que o crime “não ficará impune” e determinou prioridade na apuração.
Enterro em Belém
A família decidiu que o corpo será sepultado em Belém, cidade natal da ativista. O traslado está sendo custeado por uma campanha de financiamento coletivo organizada por amigos, que já arrecadou mais de R$ 30 mil. A cerimônia de despedida está prevista para as 10h deste sábado, no Cemitério da Santa Casa, na capital paraense. Amigos e familiares devem realizar uma missa em sua memória antes do sepultamento.
A campanha de financiamento, intitulada “Leva (nome) para casa”, também tem como objetivo arrecadar recursos para custear despesas legais e apoiar a família durante este período. Os organizadores afirmam que qualquer valor restante será doado a projetos sociais de apoio a pessoas trans, como forma de honrar o legado da ativista.
O contexto da violência contra pessoas trans no Brasil
O Brasil é o país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo pelo 14º ano consecutivo, segundo dados da Antra. Em 2024, foram registrados pelo menos 145 assassinatos, a maioria de mulheres trans e travestis negras e periféricas. Especialistas apontam que a subnotificação é alta e os números reais podem ser ainda maiores, já que muitos casos são registrados como “homicídios comuns” sem considerar a identidade de gênero da vítima.
De acordo com o Dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais, a expectativa de vida de uma pessoa trans no Brasil é de apenas 35 anos, enquanto a média geral da população ultrapassa os 75 anos. A violência atinge desproporcionalmente a população trans, especialmente negras e periféricas, e está diretamente relacionada à falta de políticas públicas eficazes, ao preconceito estrutural e à impunidade.
Fatores que contribuem para a violência
- Discriminação institucional: Dificuldade de acesso a saúde, educação e emprego formal leva muitas pessoas trans à marginalização e à vulnerabilidade.
- Subnotificação e impunidade: Crimes de ódio contra a população trans frequentemente não são investigados como tal, e a impunidade é alta.
- Falta de delegacias especializadas: A maioria dos estados brasileiros não possui unidades específicas para crimes de LGBTfobia.
- Discurso de ódio nas redes: O ambiente digital propaga discursos que incitam violência e reforçam estigmas.
O que pode ser feito
Ativistas cobram a implementação integral da Lei de Identidade de Gênero (Decreto 8.727/2016) e da Lei de Inclusão Social. Também pedem a criação de delegacias especializadas em crimes de ódio, a capacitação de agentes públicos e a promoção de campanhas educativas contra a transfobia. A criminalização da LGBTfobia pelo STF, em 2019, foi um avanço, mas sua aplicação prática ainda é limitada.
Investigação e justiça
A Polícia Civil informou que está ouvindo testemunhas e analisando imagens. A delegacia trabalha com duas linhas de investigação: crime passional e LGBTfobia. Familiares pedem que o crime seja tratado como homicídio qualificado por motivo torpe, o que pode aumentar a pena. O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) acompanha o caso, e a promotoria especializada em crimes de ódio já sinalizou que atuará no processo.
Especialistas em direito penal destacam que, desde a equiparação da LGBTfobia ao racismo, crimes motivados por ódio contra a população LGBTQIA+ podem ser enquadrados na Lei 7.716/1989, alterada pela Lei 14.532/2023, que prevê penas de um a cinco anos de prisão para atos de discriminação. No entanto, para que a lei seja aplicada, é necessária a comprovação da motivação discriminatória, o que nem sempre é fácil.
O assassinato desta ativista expõe, mais uma vez, a vulnerabilidade da população trans no Brasil. Enquanto a sociedade não enfrentar de forma estrutural a transfobia, vidas continuarão sendo ceifadas violentamente. A expectativa é que o caso sirva de alerta e mobilize as autoridades para ações concretas, não apenas punitivas, mas também preventivas.
Perguntas frequentes
Como denunciar crimes de LGBTfobia?
Denúncias podem ser feitas pelo Disque 100 (Direitos Humanos), pelo Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) ou diretamente na delegacia mais próxima. Em casos de emergência, ligue 190. A plataforma “LGBTFobia+”, mantida pela Antra, também oferece orientação on-line.
O que diz a lei brasileira sobre crimes de ódio?
Em 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) equiparou a LGBTfobia ao crime de racismo, tornando-a inafiançável e imprescritível. A Lei 7.716/1989, alterada pela Lei 14.532/2023, prevê punição para atos de discriminação por orientação sexual e identidade de gênero, com penas de um a cinco anos de prisão.
Onde buscar apoio?
Organizações como a Antra, o Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (IBRAT) e o Centro de Apoio e Referência da População LGBTQIA+ (CAR) oferecem acolhimento, orientação jurídica e psicossocial. Em várias capitais, existem centros de referência em direitos humanos, como o Centro de Cidadania LGBT (CCLGBT) no Rio de Janeiro e a Casa 1 em São Paulo.
Como apoiar a família da vítima?
Familiares e amigos estão arrecadando fundos via campanha on-line. Quem desejar contribuir pode entrar em contato com os organizadores pelas redes sociais do projeto “Leva (nome) para casa”. Também é possível apoiar financeiramente entidades que lutam pelos direitos da população trans, como a Antra e a TRANSFORMAR.
Qual a diferença entre identidade de gênero e orientação sexual?
Identidade de gênero refere-se à forma como a pessoa se percebe (homem, mulher, não binário, etc.), enquanto orientação sexual diz respeito à atração afetivo-sexual por outras pessoas. Pessoas trans podem ter qualquer orientação sexual.