Correção de toda tabela do IR custaria mais de R$ 100 bilhões por ano

A correção integral da tabela do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) pela inflação é uma das principais reivindicações de trabalhadores e especialistas em tributação no Brasil. No entanto, um cálculo recente realizado por entidades como o Sindifisco Nacional e a FGV aponta que o custo para zerar a defasagem acumulada desde 2015 superaria a impressionante marca de R$ 100 bilhões por ano. Esse valor coloca em xeque a viabilidade fiscal da medida e reacende o debate sobre os rumos da política tributária no país. A discussão envolve não apenas justiça fiscal, mas também o equilíbrio das contas públicas e o impacto sobre o consumo e o crescimento econômico.

A defasagem histórica da tabela do IR

A tabela progressiva do IRPF é composta atualmente por cinco faixas de alíquotas: isento, 7,5%, 15%, 22,5% e 27,5%. Ela não é corrigida integralmente desde 2015. Nesse período, a inflação oficial (IPCA/INPC) corroeu significativamente o poder de compra dos salários, empurrando muitos contribuintes para faixas mais altas sem que houvesse aumento real de renda. Esse fenômeno, conhecido como "progressividade fria" ou "reajuste silencioso", faz com que o governo arrecade mais sem precisar alterar a legislação. Estima-se que mais de 10 milhões de brasileiros tenham passado a pagar IR ou migrado para alíquotas superiores exclusivamente por causa da inflação desde a última correção.

Os cálculos por trás dos R$ 100 bilhões

Para chegar ao valor de R$ 100 bilhões, os técnicos consideram o reajuste de todos os limites da tabela: da faixa de isenção até a última alíquota de 27,5%. Também entram na conta a correção da dedução por dependente, a ampliação do desconto simplificado e o ajuste do limite de isenção para maiores de 65 anos. Quando aplicados os índices de inflação acumulados, a renúncia de receita atinge um montante equivalente a cerca de 1% do PIB e a uma fatia expressiva do orçamento de áreas como Educação e Saúde. Esse custo elevado explica a resistência do governo em adotar a medida de uma só vez. Por outro lado, a correção ampliaria a renda disponível das famílias, com potencial efeito positivo sobre o consumo e a arrecadação indireta de outros tributos.

  • Reajuste das faixas: correção dos limites de cada alíquota pelo IPCA acumulado.
  • Dedução por dependente: atualmente fixada em R$ 189,59, passaria a valores mais próximos da realidade.
  • Desconto simplificado: ampliação do teto de R$ 16.754,34 para cerca de R$ 26.000.
  • Impacto na arrecadação: renúncia estimada em mais de R$ 100 bilhões anuais.

Impactos na vida do trabalhador

Atualmente, está isento do Imposto de Renda quem recebe até R$ 2.259,20 por mês (considerando o desconto simplificado de R$ 564,80). Com a correção integral, estima-se que a faixa de isenção subiria para algo entre R$ 3.100 e R$ 3.500, dependendo do índice utilizado. Isso tiraria milhões de brasileiros da condição de contribuintes e aliviaria a carga sobre a classe média, que hoje é a principal afetada pela falta de atualização da tabela. Por exemplo, um trabalhador que ganha R$ 3.500 hoje paga cerca de R$ 100 por mês de IR; com a correção, poderia ficar isento, economizando mais de R$ 1.200 por ano. Esse dinheiro extra poderia ser direcionado ao consumo, gerando um círculo virtuoso na economia.

O dilema do governo e as alternativas

O governo do presidente Lula reconhece a defasagem histórica da tabela, mas se vê diante de um dilema fiscal. O novo arcabouço fiscal limita o crescimento das despesas a 70% do crescimento da receita, e uma renúncia fiscal da magnitude de R$ 100 bilhões exigiria cortes profundos em outras áreas ou a criação de novas fontes de receita. Por isso, o governo tem optado por uma estratégia gradualista: prometeu isentar quem ganha até R$ 5 mil, mas até agora cumpriu parcialmente a promessa, elevando a faixa de isenção para dois salários mínimos (R$ 2.824 em 2024). Uma possível compensação seria aumentar a tributação sobre lucros e dividendos, atualmente isentos para pessoas físicas, medida que vem sendo discutida no Congresso. Outra alternativa é vincular a correção da tabela à inflação por lei, eliminando a necessidade de negociação anual. Enquanto isso não acontece, a defasagem continua crescendo e a carga tributária sobre o trabalho permanece elevada.

Possíveis cenários e propostas em discussão

Diversos projetos de lei tramitam no Congresso Nacional para corrigir a tabela do IRPF. Alguns propõem a correção automática anual com base no IPCA, outros defendem uma reforma mais ampla que simplifique as faixas e reduza o número de alíquotas. A Fazenda Nacional estuda um plano de correção escalonada ao longo de três anos, diluindo o impacto fiscal. As entidades representativas dos auditores fiscais, como o Sindifisco Nacional, defendem a correção integral imediata como forma de restaurar a justiça tributária. O debate promete se intensificar no segundo semestre de 2025, com a pressão de sindicatos e associações de contribuintes.

Perguntas Frequentes

O que é a defasagem da tabela do IR?

É a diferença entre os valores das faixas de tributação e a inflação acumulada. Como a tabela não é reajustada, o contribuinte acaba pagando mais imposto mesmo sem ganhar aumento real. A defasagem acumulada desde 2015 é estimada em mais de 100% do IPCA.

Quanto custa corrigir a tabela integralmente?

Segundo estimativas de entidades como o Sindifisco Nacional e a FGV, o custo para zerar totalmente a defasagem é superior a R$ 100 bilhões por ano, considerando o reajuste de todas as faixas e deduções. Esse valor equivale a aproximadamente 1% do PIB brasileiro.

Quem é beneficiado com a correção?

Os principais beneficiados são os trabalhadores assalariados das classes média e média-baixa, que teriam uma redução na carga tributária sobre a renda do trabalho. Também seriam beneficiados os aposentados e pensionistas que dependem do limite de isenção por idade.

Qual a posição do governo atual?

O governo reconhece a necessidade de atualizar a tabela, mas defende uma correção gradual para não comprometer o ajuste das contas públicas e o cumprimento do arcabouço fiscal. A promessa de isenção até R$ 5 mil deve ser implementada em etapas.

Existem propostas para corrigir automaticamente a tabela?

Sim, há projetos de lei que preveem a correção anual automática pelo IPCA, sem necessidade de autorização legislativa a cada ano. A aprovação dessa medida poderia evitar a repetição do atual quadro de defasagem no futuro.

A correção total pode ser compensada por outros tributos?

Uma das ideias em discussão é aumentar a tributação sobre lucros e dividendos distribuídos a pessoas físicas, que hoje são isentos. Essa medida poderia gerar receita adicional para compensar parte da renúncia com a correção da tabela do IRPF.