Dino vota a favor da responsabilização de redes por conteúdos ilegais

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), votou nesta quinta-feira (10) a favor da responsabilização das plataformas digitais por conteúdos ilegais publicados por seus usuários. O voto foi proferido no julgamento do Recurso Extraordinário (RE) 1.037.396, que discute a constitucionalidade do artigo 19 do Marco Civil da Internet. Para Dino, a imunidade concedida às redes sociais não pode ser absoluta, especialmente em casos de desinformação, discurso de ódio e ataques à democracia.

Contexto do julgamento

O artigo 19 do Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014) estabelece que as plataformas digitais só podem ser responsabilizadas por danos decorrentes de conteúdo de terceiros se descumprirem ordem judicial específica. O dispositivo tem sido alvo de críticas por permitir a propagação de conteúdos nocivos sem responsabilidade imediata das empresas. O STF analisa se esse artigo é compatível com a Constituição Federal, especialmente com os direitos fundamentais à liberdade de expressão e à proteção da dignidade humana.

O recurso extraordinário foi interposto por uma plataforma digital após decisão judicial que a condenou a indenizar um usuário pela criação de um perfil falso. O STF reconheceu a repercussão geral da matéria, o que significa que a decisão final terá efeito vinculante para todos os tribunais do país.

O voto de Flávio Dino

Em seu voto, o ministro defendeu que a liberdade de expressão não pode ser usada como escudo para a prática de ilícitos. Ele propôs que as plataformas devem atuar de forma diligente ao serem notificadas extrajudicialmente sobre conteúdos ilegais, podendo ser responsabilizadas se não agirem com celeridade. Dino também destacou a necessidade de se combater a desinformação que ameaça o processo democrático. O voto acompanhou a posição da relatora, ministra Cármen Lúcia, que já havia se manifestado pela revisão do artigo 19.

Dino citou decisões anteriores do STF que reforçam a prevalência da Constituição sobre interesses comerciais e a proteção de direitos fundamentais. “A imunidade concedida às redes não pode ser absoluta. A liberdade de expressão não autoriza a propagação de crimes e a destruição do debate público”, afirmou o ministro durante a sessão.

Repercussão

O voto de Dino gerou reações imediatas. Entidades de defesa dos direitos digitais, como o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) e a Coalizão Direitos na Rede, manifestaram preocupação com possíveis excessos de censura privada. Por outro lado, organizações de combate à desinformação, como o InternetLab e o Aos Fatos, elogiaram a posição, afirmando que ela contribui para um ambiente digital mais seguro.

Parlamentares da base governista também apoiaram a decisão, enquanto setores da oposição criticaram a medida como uma tentativa de controlar a liberdade de expressão. Grandes plataformas como Google e Meta ainda não se manifestaram oficialmente, mas já sinalizam que podem recorrer a instâncias internacionais caso a decisão seja desfavorável.

Possíveis impactos

Se a maioria do STF seguir o voto de Dino, o Brasil poderá estabelecer um novo marco regulatório para as big techs. As plataformas terão que adotar mecanismos mais eficientes de moderação de conteúdo, especialmente diante de notificações extrajudiciais. Isso pode impactar a forma como Facebook, Instagram, X (antigo Twitter) e YouTube lidam com denúncias de usuários.

Especialistas apontam que a decisão pode reduzir a disseminação de fake news e discursos de ódio, mas também levanta questões sobre liberdade de expressão e o risco de censura privada. O Congresso Nacional também acompanha o julgamento, e há projetos de lei em tramitação que tratam da regulação das redes sociais. A decisão do STF pode influenciar diretamente essas propostas.

Perguntas frequentes

O que é o Marco Civil da Internet?

É a lei que estabelece princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da internet no Brasil. Foi sancionada em 2014 e é considerada uma das legislações mais avançadas do mundo para o ambiente digital. Ela estabelece a neutralidade da rede, a privacidade dos usuários e a responsabilidade dos provedores.

O que diz o artigo 19?

O artigo 19 do Marco Civil determina que as plataformas digitais só podem ser responsabilizadas por conteúdo de terceiros se descumprirem ordem judicial. A discussão no STF é se esse artigo é constitucional ou se as empresas devem ter responsabilidade maior, especialmente quando notificadas extrajudicialmente.

O que muda com o voto de Dino?

Se o entendimento prevalecer, as redes sociais poderão ser responsabilizadas mesmo sem ordem judicial, desde que sejam notificadas extrajudicialmente sobre conteúdos ilícitos e não ajam com rapidez. A decisão final depende do plenário do STF, que ainda deve ouvir os demais ministros nos próximos dias.

Qual a posição das big techs?

As grandes plataformas defendem a manutenção do artigo 19, argumentando que a responsabilização sem ordem judicial levaria à censura e ao fechamento de canais legítimos. Representantes do setor afirmam que já possuem mecanismos próprios de moderação e que a decisão do STF pode criar insegurança jurídica.