Uma nova exposição em Curitiba mergulha nas raízes do samba e sua conexão com a identidade negra na capital paranaense. A mostra reúne acervo histórico, fotografias, partituras, instrumentos e depoimentos que contam como o gênero musical se consolidou como expressão cultural e ferramenta de resistência ao longo das décadas.
A exposição, que abre ao público nesta semana no Museu da Imagem e do Som do Paraná, apresenta um percurso cronológico que vai desde os primeiros registros do samba no início do século XX até os dias atuais. Com curadoria de pesquisadores da cultura afro-brasileira, a mostra busca evidenciar o protagonismo negro na construção da identidade musical curitibana.
O samba chegou a Curitiba nas primeiras décadas do século passado, trazido por migrantes e descendentes de escravizados que encontraram na cidade um cenário em transformação. A exposição resgata figuras importantes como seus primeiros intérpretes, compositores e os tradicionais terreiros de samba que marcaram a vida cultural dos bairros da capital.
A trajetória do samba no Paraná
Embora o Rio de Janeiro seja frequentemente lembrado como o berço do samba, o Paraná desenvolveu cenas próprias e vibrantes. Em Curitiba, o samba encontrou terreno fértil nos clubes negros e nas associações de moradores. A exposição documenta essa trajetória com registros raros: rodas de samba dos anos 1940 e 1950, os primeiros blocos carnavalescos e a formação de escolas de samba na cidade.
Um dos destaques é a seção dedicada à "Noite do Samba", tradicional evento curitibano que reunia grandes nomes do gênero em apresentações memoráveis. Fotografias originais e gravações de áudio restauradas permitem ao visitante experimentar um pouco da atmosfera desses encontros históricos.
Acervo e peças em destaque
O acervo reúne mais de 200 itens, muitos deles inéditos ao público. Entre os destaques estão:
- Partituras originais de compositores paranaenses das décadas de 1930 a 1960, com letras que retratam o cotidiano, as lutas e as alegrias da população negra.
- Instrumentos musicais utilizados em rodas tradicionais, incluindo cavaquinhos, tamborins, surdos e pandeiros restaurados.
- Registros fotográficos de personalidades do samba curitibano, como Dona Lourdes, Tio Chico e a Velha Guarda do Samba do Boqueirão.
- Documentos históricos que mostram a repressão e a resistência das comunidades negras durante o período em que o samba era criminalizado no Brasil.
Identidade negra e resistência cultural
Mais do que uma celebração musical, a exposição propõe uma reflexão sobre o papel do samba na afirmação da identidade negra em Curitiba. Painéis interativos e instalações audiovisuais abordam temas como racismo estrutural, violência policial e a luta por direitos civis, conectando o passado às questões contemporâneas.
“O samba sempre foi uma ferramenta de resistência. Através dele, a população negra curitibana encontrou uma maneira de expressar sua cultura, sua fé e sua luta por dignidade”, afirma a curadora da exposição, que também é pesquisadora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade Federal do Paraná.
Programação paralela e atividades educativas
A exposição conta com uma extensa programação paralela que inclui oficinas de percussão, rodas de conversa com artistas locais, apresentações ao vivo e visitas mediadas para escolas. As atividades acontecem aos sábados e domingos, com entrada gratuita em todas as sessões. Os visitantes também poderão participar de oficinas de dança e confecção de instrumentos reciclados, promovendo a interação com o universo do samba de forma prática e lúdica.
A curadoria preparou ainda um espaço sensorial com gravações históricas que podem ser ouvidas com fones de ouvido, transportando o público para diferentes décadas da história do samba. A instalação inclui depoimentos de sambistas idosos que contam, em primeira pessoa, como era a cena cultural curitibana nos anos 1950 e 1960.
Serviço e visitação
A exposição fica em cartaz até o dia 30 de setembro de 2025, no Museu da Imagem e do Som do Paraná, localizado na Rua Barão do Serro Azul, 210, Centro Histórico de Curitiba. A visitação ocorre de terça a domingo, das 10h às 18h, com entrada franca. Grupos escolares e instituições podem agendar visitas guiadas pelo telefone (41) 3321-3300 ou pelo e-mail [email protected].
A visitação é acessível, com rampas, elevadores e recursos de audiodescrição para pessoas com deficiência visual. Todos os espaços da exposição contam com legendas em braile e recursos táteis.