O Governo Central — que engloba as contas do Tesouro Nacional, da Previdência Social e do Banco Central — registrou um déficit primário de R$ 40,621 bilhões em maio de 2025, conforme divulgado pela Secretaria do Tesouro Nacional. O resultado veio acima das expectativas do mercado financeiro, que projetava um rombo entre R$ 30 bilhões e R$ 35 bilhões, e acendeu um alerta sobre a trajetória das contas públicas no ano. O déficit primário ocorre quando as despesas totais superam as receitas, excluindo os gastos com juros da dívida pública. Esse indicador é um dos mais acompanhados por investidores e agências de classificação de risco, pois sinaliza a capacidade do governo de gerar superávit para pagar sua dívida.
O resultado negativo de maio reflete uma combinação de fatores sazonais e estruturais. Do lado das despesas, maio é um mês de concentração de gastos com precatórios, transferências constitucionais a estados e municípios, e o pagamento do 13º salário de aposentados e pensionistas do INSS. Do lado das receitas, a arrecadação federal cresceu em termos nominais, mas o ritmo de crescimento ficou abaixo do avanço das despesas obrigatórias, que têm indexação ao salário mínimo e à inflação. O déficit também foi influenciado pelo aumento real do salário mínimo, que elevou os gastos com benefícios previdenciários e assistenciais, como o BPC (Benefício de Prestação Continuada) e o abono salarial.
O que explica o déficit de maio?
A receita total do Governo Central em maio somou aproximadamente R$ 160 bilhões, enquanto as despesas atingiram cerca de R$ 200 bilhões, resultando no déficit de R$ 40,6 bilhões. Esse número pode ser decomposto nos seguintes itens:
- Previdência Social: rombo de cerca de R$ 30 bilhões, pressionado pelo pagamento do 13º salário e pelo crescimento de aposentadorias e pensões.
- Pessoal e encargos sociais: gastos de aproximadamente R$ 35 bilhões, com impacto dos reajustes salariais concedidos a diversas categorias do funcionalismo público em 2025.
- Outras despesas obrigatórias: R$ 50 bilhões, incluindo transferências a estados e municípios (FPE, FPM), subsídios e subvenções.
- Investimentos e custeio: cerca de R$ 15 bilhões.
Do lado das receitas, a arrecadação líquida (já descontadas as transferências constitucionais) somou R$ 120 bilhões, impulsionada pelo Imposto de Renda, contribuições previdenciárias e PIS/Cofins, mas afetada por desonerações tributárias e pelo baixo crescimento da atividade econômica no início de 2025.
Acumulado do ano e meta fiscal
Nos primeiros cinco meses de 2025, o déficit primário do Governo Central acumulou aproximadamente R$ 82 bilhões, contra um superávit de R$ 10 bilhões no mesmo período de 2024. A meta fiscal para o ano, estabelecida no Orçamento (Lei de Diretrizes Orçamentárias), prevê déficit primário zero, com banda de tolerância de até 0,25% do PIB (cerca de R$ 28,8 bilhões). Com o resultado já acumulado, o governo precisaria de um forte superávit nos meses seguintes — algo em torno de R$ 55 bilhões de julho a dezembro — para cumprir a meta, o que é considerado improvável pela maioria dos analistas. A expectativa do mercado é de um déficit primário entre R$ 100 bilhões e R$ 150 bilhões em 2025.
Impactos no mercado financeiro
A divulgação do déficit elevado gerou reação imediata nos mercados. O dólar comercial fechou em alta, negociado acima de R$ 5,50, enquanto a taxa de juros futura (DI para janeiro de 2027) subiu para 15,2% ao ano. Investidores interpretaram o dado como um sinal de fragilidade fiscal, o que aumenta o prêmio de risco exigido para carregar títulos públicos brasileiros. Além disso, a piora das expectativas fiscais pode influenciar as próximas decisões do Comitê de Política Monetária (Copom), que pode interromper o ciclo de cortes na Selic para conter pressões inflacionárias causadas pelo câmbio desvalorizado e pela demanda aquecida.
Medidas de ajuste em discussão
Diante do cenário, o governo federal discute um conjunto de medidas para conter o avanço das despesas e aumentar a arrecadação. Entre as opções estão:
- Contingenciamento orçamentário: bloqueio de verbas discricionárias de ministérios, que pode chegar a R$ 15 bilhões no segundo semestre.
- Reoneração da folha de pagamento: reversão parcial das desonerações concedidas a 17 setores da economia, com impacto estimado de R$ 10 bilhões por ano.
- Revisão de subsídios e benefícios tributários: corte de incentivos fiscais considerados ineficientes, como alguns programas setoriais.
- Reforma administrativa: proposta de emenda constitucional que limita gastos com pessoal e altera regras de ingresso e progressão no serviço público.
- Nova âncora fiscal: revisão das regras do arcabouço fiscal para permitir maior flexibilidade em momentos de baixo crescimento, sem abrir mão da sustentabilidade da dívida.
Perguntas frequentes sobre o déficit primário
- O que é déficit primário? É o resultado negativo das contas do governo quando as despesas (excluindo juros) superam as receitas. Ele indica se o governo está conseguindo gerar economia para pagar os juros da dívida. Um déficit primário elevado obriga o governo a emitir mais dívida, aumentando o endividamento público.
- Qual a meta fiscal para 2025? A meta é déficit primário zero, com tolerância de até R$ 28,8 bilhões. O resultado acumulado até maio já ultrapassou esse limite, o que exigirá um grande esforço de ajuste nos meses restantes.
- Por que maio tem déficit historicamente? Maio concentra pagamentos de precatórios, transferências constitucionais e o adiantamento do 13º salário do INSS, fatores que elevam as despesas acima da média.
- Como o déficit afeta o câmbio e os juros? Um déficit maior que o esperado gera desconfiança entre investidores, que passam a exigir maior prêmio de risco. Isso pressiona o câmbio (alta do dólar) e eleva as taxas de juros futuras, encarecendo o crédito e desacelerando a economia.
- O governo pode reverter o déficit ainda em 2025? Parcialmente, se adotar medidas contundentes de corte de gastos e aumento de receitas. Contudo, para reverter completamente o déficit e cumprir a meta, seria necessário um ajuste fiscal muito superior ao que vem sendo discutido, o que torna o cumprimento da meta improvável. O foco do mercado está na trajetória da dívida para os próximos anos.
- O que acontece se o déficit continuar alto? A dívida pública bruta, que já está próxima de 80% do PIB, continuará crescendo, elevando o risco de um rebaixamento da nota de crédito do Brasil pelas agências de rating. Isso encarece o financiamento do setor público e privado e pode comprometer o crescimento econômico de longo prazo.
O déficit primário de R$ 40,6 bilhões em maio de 2025 é um sinal de alerta para as contas públicas brasileiras. Sem medidas eficazes de ajuste fiscal, o país corre o risco de ver sua dívida pública crescer de forma insustentável, com impactos negativos sobre a inflação, os juros e o crescimento econômico. Continue acompanhando as notícias sobre economia e política fiscal no Zoom News.