Em 17 de maio de 1990, a Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças (CID). A decisão representou um marco histórico na luta pelos direitos LGBTQ+ e no reconhecimento da diversidade sexual como parte natural da experiência humana. Três décadas e meia depois, o impacto dessa resolução ainda ecoa em todo o mundo, inclusive no Brasil.
Contexto histórico
Durante grande parte do século XX, a homossexualidade foi classificada como um transtorno mental pelas principais instituições de saúde. A CID-6, publicada em 1948, incluía a homossexualidade entre as "personalidades patológicas". Essa visão patologizante alimentou preconceitos, justificou terapias de conversão e contribuiu para a discriminação sistêmica contra pessoas LGBTQ+.
No final dos anos 1960 e início dos 70, movimentos sociais e estudos científicos começaram a questionar essa classificação. Em 1973, a Associação Americana de Psiquiatria removeu a homossexualidade do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM). Esse precedente abriu caminho para que a OMS revisasse sua própria classificação.
A mobilização da sociedade civil e da comunidade científica
Pesquisas fundamentais, como os relatórios Kinsey (1948 e 1953) e os estudos da psicóloga Evelyn Hooker (1957), demonstraram que não havia diferenças significativas no ajustamento psicológico entre pessoas homossexuais e heterossexuais. Essas evidências científicas contrariavam a visão patologizante e ganharam força com o ativismo pós-Revolta de Stonewall (1969). Organizações LGBTQ+ ao redor do mundo passaram a pressionar as entidades de saúde para que a homossexualidade fosse despatologizada. Nos anos 1980, a epidemia de HIV/Aids também expôs a necessidade de políticas de saúde baseadas em evidências, não em preconceitos.
A decisão da OMS em 1990
A 43ª Assembleia Mundial da Saúde, realizada em Genebra, aprovou a exclusão da homossexualidade da CID-10. A decisão baseou-se em evidências científicas de que a homossexualidade não implica prejuízo funcional ou sofrimento psíquico intrínseco. A partir da publicação da CID-10, em 1993, a homossexualidade deixou oficialmente de ser considerada uma doença em todo o mundo.
A atuação de ativistas e organizações LGBTQ+ foi fundamental para pressionar a OMS. O psiquiatra brasileiro Dr. João Paulo dos Reis, que participou das discussões, destacou que "a ciência prevaleceu sobre o preconceito".
Impacto no Brasil
O Brasil seguiu a orientação da OMS, mas o preconceito e a discriminação persistiram. Em 1999, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) editou a Resolução nº 001/99, proibindo psicólogos de oferecerem terapias de conversão – a chamada "cura gay". Em 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) equiparou a homofobia ao crime de racismo, tornando a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero uma infração penal.
A data de 17 de maio foi instituída como o Dia Internacional contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia (IDAHOTB), celebrada em mais de 130 países. No Brasil, a data é marcada por eventos e campanhas de conscientização.
O caminho percorrido no Brasil: avanços legislativos e jurisprudenciais
Nas últimas décadas, o Brasil conquistou importantes vitórias legais. Em 2011, o STF reconheceu a união estável entre pessoas do mesmo sexo (ADI 4277 e ADPF 132). Em 2013, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) obrigou os cartórios a celebrarem casamentos civis entre pessoas do mesmo sexo. Em 2018, o STF decidiu que a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero é crime de racismo (ADO 26 e MI 4733). Em 2023, a Lei 14.532/2023 equiparou explicitamente a injúria racial ao racismo, reforçando a proteção contra ofensas homofóbicas. O Sistema Único de Saúde (SUS) também avançou com a Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, garantindo atendimento humanizado.
Apesar dos avanços legais, a violência e a discriminação contra a população LGBTQ+ continuam altas. Dados de organizações de direitos humanos mostram que o Brasil ainda lidera o ranking de homicídios de pessoas trans e travestis no mundo. A evasão escolar entre jovens LGBTQ+ e as dificuldades de acesso ao mercado de trabalho são desafios que exigem políticas públicas mais eficazes e uma mudança cultural profunda.
Linha do tempo
- 1948/1953 – Relatórios Kinsey mostram que a homossexualidade é mais comum do que se pensava.
- 1973 – Associação Americana de Psiquiatria remove a homossexualidade do DSM.
- 1990 – OMS retira a homossexualidade da CID.
- 1993 – Publicação da CID-10 sem a homossexualidade como transtorno.
- 1999 – Conselho Federal de Psicologia proíbe terapias de conversão no Brasil.
- 2011 – STF reconhece a união estável homoafetiva.
- 2013 – CNJ determina que cartórios celebrem casamento entre pessoas do mesmo sexo.
- 2019 – STF equipara homofobia ao crime de racismo.
- 2023 – Lei 14.532/2023 reforça a criminalização da homofobia.
- 2025 – Avanços legais, mas desafios como violência e discriminação persistem.
Perguntas frequentes
A homossexualidade é considerada uma doença hoje?
Não. A OMS e todas as principais associações médicas e psicológicas do mundo reconhecem que a homossexualidade é uma variação natural da sexualidade humana, não uma doença.
O que foi a CID e por que sua revisão foi importante?
A Classificação Internacional de Doenças (CID) é um sistema de categorias de doenças e condições de saúde, usado globalmente para diagnóstico e pesquisa. Retirar a homossexualidade da CID significou despatologizá-la e eliminar a justificativa "científica" para discriminação e tratamentos abusivos.
Por que 17 de maio é o Dia Internacional contra a Homofobia?
A data foi escolhida em homenagem ao dia em que a OMS retirou a homossexualidade da CID, em 1990. O Dia Internacional contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia (IDAHOTB) é celebrado desde 2005 para lembrar a importância do respeito à diversidade e lutar contra a discriminação.
Qual foi o papel do Brasil na decisão da OMS?
O Brasil participou das discussões na Assembleia Mundial da Saúde e apoiou a remoção. Internamente, o país adotou a nova classificação e, posteriormente, avançou com políticas de proteção aos direitos LGBTQ+.
A homofobia ainda é um problema no Brasil?
Sim. Apesar dos avanços legais, o Brasil continua sendo um dos países que mais registram violência contra pessoas LGBTQ+. A discriminação no trabalho, na saúde e na educação ainda é uma realidade para muitos, e a luta por igualdade plena continua.