O coletivo de percussão feminina Ilú Obá De Min promoveu, neste mês de julho, mais uma edição da tradicional lavagem na escadaria do Bixiga, em São Paulo. A cerimônia, que mistura música, dança e espiritualidade, tem como objetivo denunciar a "falsa abolição" da escravatura no Brasil, lembrando que a população negra ainda enfrenta desigualdades estruturais profundas.
Quem é o Ilú Obá De Min?
Criado em 2004, o Ilú Obá De Min é um grupo formado exclusivamente por mulheres percussionistas. O nome, de origem iorubá, significa "Mãos de Obá" – uma referência à guerreira Obá, divindade das águas e dos ventos no candomblé. Desde o início, o coletivo se dedica a valorizar a cultura afro-brasileira, promover o empoderamento feminino e combater o racismo por meio da música e da arte.
Ao longo de sua trajetória, o grupo já realizou centenas de apresentações no Brasil e no exterior, além de oficinas, cursos e ações sociais. A lavagem na escadaria do Bixiga tornou-se um dos eventos mais emblemáticos do calendário cultural de São Paulo, atraindo participantes de todas as idades e origens.
A lavagem como símbolo de resistência
A lavagem de escadarias com água de cheiro, flores e cantos é uma prática ritualística herdada das religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda. Para o Ilú Obá De Min, o gesto vai além da religiosidade: representa a purificação simbólica das manchas deixadas pela escravidão e a renovação do compromisso com a luta antirracista.
Ao jogar água e flores sobre os degraus, as integrantes do grupo convidam o público a refletir sobre as marcas que o período escravocrata ainda deixa na sociedade brasileira. O ato é acompanhado por toques de atabaque, cânticos em iorubá e danças que celebram a resistência e a beleza da cultura negra.
Bixiga: memórias e contradições
A escadaria do Bixiga, localizada na Rua Treze de Maio (data da assinatura da Lei Áurea), foi escolhida justamente por seu forte simbolismo. O bairro da Bela Vista é conhecido por sua herança italiana, mas também abriga uma história negra igualmente relevante. A lavagem transforma o local em um espaço de memória e resistência, conectando o passado de luta com as reivindicações do presente.
Ao ocupar as ruas com arte e militância, o Ilú Obá De Min mostra que a cultura afro-brasileira está viva e presente nos territórios mais diversos da cidade. O evento também atrai moradores, turistas e ativistas que se reúnem para celebrar a diversidade e cobrar políticas públicas de igualdade racial.
O conceito de falsa abolição
A "falsa abolição" é o tema central do ato. Em 13 de maio de 1888, a Lei Áurea foi assinada, libertando formalmente os escravizados no Brasil. No entanto, a lei não veio acompanhada de nenhuma política de reparação, acesso à terra, educação ou trabalho digno para a população negra.
Na prática, a abolição foi incompleta: o racismo estrutural continuou – e continua – a marginalizar a população negra, perpetuando desigualdades econômicas, sociais e políticas. O Ilú Obá De Min usa a lavagem para lembrar que a liberdade verdadeira ainda não foi alcançada e que é preciso lutar por uma abolição real, com direitos iguais para todos.
Como acontece a lavagem?
Durante o evento, as integrantes do grupo se posicionam ao longo da escadaria com seus instrumentos de percussão. Enquanto tocam e cantam, convidam o público a participar do ritual jogando água e flores nos degraus. A programação também inclui rodas de conversa sobre questões raciais, apresentações de grupos culturais convidados e atividades para crianças.
A participação é gratuita e aberta a todos. Muitos levam baldes, flores e instrumentos para se juntar ao cortejo. O ambiente é de celebração e conscientização, unindo arte, política e espiritualidade em um só ato.
Perguntas frequentes
O que significa o nome Ilú Obá De Min?
Em iorubá, "Ilú" quer dizer tambor, "Obá" é a guerreira e "Min" significa mãos. O nome representa a força feminina e a musicalidade do grupo.
A lavagem é um ritual religioso?
Embora seja inspirada em tradições religiosas de matriz africana, a lavagem é um ato cultural e político. O grupo não exige nenhuma crença específica para participar; a atividade é aberta a todos que desejam refletir sobre a luta antirracista.
Quem pode participar?
Qualquer pessoa pode participar. Basta comparecer à escadaria do Bixiga durante a programação. Não é necessário inscrição prévia, e a entrada é gratuita.
Onde e quando acontece a lavagem?
A lavagem ocorre anualmente, em julho, na escadaria do Bixiga, em São Paulo (Rua Treze de Maio, esquina com a Rua dos Ingleses). A data exata é divulgada pelo grupo em suas redes sociais.