As famílias paulistanas começaram 2025 com um cenário de aperto financeiro. Dados divulgados pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomercio) mostram que o índice de inadimplência voltou a subir na capital, interrompendo uma trajetória de leve melhora observada no ano passado. O levantamento, realizado mensalmente, aponta que quase um terço das famílias da cidade possui contas em atraso há mais de 90 dias – o maior patamar desde o início da série histórica para o mês de junho.
O aumento da inadimplência preocupa especialistas, pois reflete não apenas o endividamento elevado, mas também a dificuldade das famílias em reorganizar o orçamento diante de juros altos, inflação persistente e um mercado de trabalho que ainda não se recuperou totalmente.
O que diz a pesquisa da Fecomercio
De acordo com a Fecomercio, o percentual de famílias com dívidas em atraso na cidade de São Paulo cresceu nos últimos três meses. A pesquisa considera inadimplentes as famílias que relataram ter contas ou dívidas vencidas há mais de três meses. Em maio, esse indicador atingiu 18,4% das famílias, contra 16,9% no mesmo período de 2024. O valor médio das dívidas também subiu, passando de R$ 4.200 para cerca de R$ 4.800, impulsionado principalmente pelo crédito rotativo do cartão e pelo cheque especial.
O estudo também revela que o comprometimento da renda com dívidas aumentou: as famílias paulistanas comprometem, em média, 30,5% da renda mensal com pagamentos de dívidas, ante 28,7% um ano antes. Esse percentual está acima do recomendado por educadores financeiros, que sugerem um limite de 20% para não comprometer o orçamento essencial.
Principais causas do aumento da inadimplência
Taxa de juros elevada
A manutenção da taxa Selic em patamares elevados – atualmente em 13,75% ao ano – encarece o crédito e dificulta a renegociação de dívidas. Com juros altos, as parcelas do rotativo do cartão de crédito e do cheque especial se acumulam rapidamente, levando muitas famílias a entrar na lista de inadimplentes.
Inflação dos alimentos e energia
Apesar de a inflação geral ter dado sinais de arrefecimento, os preços dos alimentos e da energia elétrica continuam subindo acima da média. Esses itens consomem parte significativa do orçamento das famílias de baixa e média renda, reduzindo a margem para pagamento de dívidas. Um levantamento do IPCA mostrou alta acumulada de 7,2% em alimentos nos últimos doze meses, pressionando o bolso do consumidor.
Desemprego e informalidade
O mercado de trabalho na Grande São Paulo ainda apresenta taxas de desemprego na casa dos 9%, com um contingente significativo de trabalhadores informais, sem renda fixa. A instabilidade financeira faz com que muitos percam a capacidade de honrar compromissos assumidos em momentos de maior otimismo. Dados da Pnad Contínua mostram que a taxa de informalidade na região metropolitana gira em torno de 40%.
Crédito facilitado e uso do rotativo
Nos últimos anos, houve expansão do crédito consignado e do cartão de crédito, especialmente para aposentados e servidores. Embora tenha aquecido o consumo, o endividamento cresceu. Muitos consumidores recorrem ao rotativo do cartão para fechar as contas no fim do mês, mas acabam presos a juros que ultrapassam 300% ao ano, alimentando a inadimplência.
Perfil das famílias endividadas
A pesquisa da Fecomercio traça um perfil das famílias inadimplentes na capital: a maioria tem renda de até 5 salários mínimos, está na faixa etária entre 30 e 49 anos e possui ao menos um cartão de crédito. Surpreendentemente, o endividamento também cresceu entre famílias com renda mais alta (acima de 10 salários mínimos), especialmente em decorrência de financiamentos imobiliários e veículos com parcelas reajustadas pela inflação.
As regiões periféricas da cidade, como as zonas Sul e Leste, concentram os maiores índices de inadimplência, reflexo da menor renda média e do acesso limitado a serviços financeiros com taxas justas.
Impactos da inadimplência na economia
O aumento da inadimplência tem efeitos em cadeia. Para as famílias, significa restrição ao crédito, inclusão em cadastros de proteção ao crédito (SPC, Serasa), dificuldade para alugar imóveis e até perda de bens. Além disso, o estresse financeiro gera impactos na saúde mental, com aumento de casos de ansiedade e depressão ligados a dívidas.
Para o comércio, a inadimplência reduz o poder de compra das famílias e eleva os custos com cobranças e provisões para devedores duvidosos. Pequenos e médios empresários são os mais afetados, pois operam com margens apertadas e dependem do fluxo de caixa das vendas a prazo para sobreviver.
Na economia como um todo, o endividamento excessivo das famílias contribui para a desaceleração do consumo, que responde por cerca de 60% do PIB brasileiro. Se a inadimplência continuar subindo, pode levar a um ciclo de retração econômica.
O que fazer para evitar a inadimplência
Especialistas ouvidos pela reportagem recomendam uma série de medidas para evitar o endividamento excessivo e sair da inadimplência:
- Planejamento financeiro: Anotar todas as receitas e despesas, identificar gastos supérfluos e estabelecer metas de economia. Aplicativos de controle financeiro podem ajudar.
- Renegociação de dívidas: Entrar em contato com os credores para negociar prazos, descontos e parcelamentos. Muitos bancos oferecem canais de renegociação com condições especiais.
- Evitar o rotativo do cartão: Pagar a fatura integralmente sempre que possível. Caso não seja possível, buscar alternativas de crédito mais baratas, como o crédito consignado ou empréstimo pessoal com juros menores.
- Construir uma reserva de emergência: Guardar de 3 a 6 meses de despesas em uma aplicação de fácil resgate, para imprevistos como perda de renda ou despesas médicas.
- Educação financeira: Participar de cursos gratuitos sobre finanças pessoais oferecidos por instituições como Sebrae, Procon e escolas do governo.
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Perguntas frequentes sobre inadimplência
1. O que é considerado inadimplência?
Inadimplência é a situação em que uma pessoa ou família não paga uma dívida dentro do prazo acordado. Geralmente, considera-se inadimplente quem tem contas atrasadas há mais de 90 dias, prazo após o qual o credor pode negativar o nome do devedor.
2. Como saber se estou negativado?
É possível consultar a situação do CPF gratuitamente nos sites do SPC Brasil, Serasa e Boa Vista. Basta informar o número do CPF e, se houver restrições, elas aparecerão com detalhes sobre o valor e o credor.
3. A inadimplência afeta o score de crédito?
Sim, o score de crédito é um indicador usado pelos bancos e financeiras para avaliar o risco de emprestar dinheiro. Ter dívidas em atraso reduz o score, dificultando a obtenção de novos créditos, financiamentos e até mesmo a aprovação em aluguéis.
4. Como renegociar dívidas com juros altos?
O primeiro passo é contatar o credor e manifestar o desejo de quitar o débito. Muitas empresas oferecem descontos para pagamento à vista ou parcelamento com juros reduzidos. Também é possível utilizar o portal consumidor.gov.br para mediar conflitos com empresas.
Em resumo, a inadimplência das famílias na cidade de São Paulo é um reflexo de um cenário macroeconômico desafiador, mas também de hábitos financeiros que podem ser ajustados. A educação financeira e a busca por alternativas de crédito mais baratas são caminhos essenciais para reverter esse quadro.