O Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M), conhecido como a "inflação do aluguel" por ser o indexador mais comum em contratos de locação no Brasil, registrou em julho de 2025 uma deflação de 0,77%, de acordo com a Fundação Getulio Vargas (FGV). Este é o terceiro mês consecutivo de queda — após variações de -0,34% em maio e -0,42% em junho — consolidando uma trajetória de arrefecimento que surpreendeu analistas e traz alívio para inquilinos em todo o país. Com o resultado, o índice acumula recuo de 0,5% no ano e de 0,3% em 12 meses.
O IGP-M é um indicador amplo, que reflete não apenas os preços ao consumidor, mas sobretudo o atacado e a construção civil. Por isso, sua queda expressiva sinaliza mudanças profundas na dinâmica de custos da economia brasileira, influenciada por fatores externos e internos. Neste artigo, analisamos os números, as causas do movimento e o que esperar para os próximos meses.
O IGP-M de julho em números
O índice geral caiu 0,77% em julho, puxado principalmente pelo Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), que representa 60% do IGP-M e registrou queda de 1,2% no mês. O Índice de Preços ao Consumidor (IPC), com peso de 30%, subiu 0,3%, enquanto o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), com 10% de participação, avançou 0,1%.
- IGP-M (julho/25): -0,77%
- IPA (60% do índice): -1,2%
- IPC (30%): +0,3%
- INCC (10%): +0,1%
- Acumulado no ano: -0,5%
- Acumulado 12 meses: -0,3%
No atacado, os destaques negativos vieram de commodities como soja (-4,8%), minério de ferro (-3,9%) e milho (-2,6%). A energia elétrica também contribuiu com queda nos preços industriais. Já no varejo, os alimentos in natura subiram moderadamente, mas itens como leite e derivados recuaram, ajudando a conter a inflação ao consumidor.
Por que o IGP-M cai pelo terceiro mês consecutivo?
Três fatores principais explicam a sequência de deflações:
1. Preços internacionais de commodities em baixa
A desaceleração econômica na China e na Europa reduziu a demanda por matérias-primas, derrubando cotações de minério de ferro, petróleo e grãos. Como o IGP-M é fortemente influenciado pelo atacado, essa queda se reflete diretamente no índice.
2. Valorização do real frente ao dólar
O câmbio mais favorável barateia insumos importados, reduzindo custos para a indústria e agricultura. Em julho, a moeda brasileira se manteve em patamar abaixo de R$ 5,40, aliviando pressões sobre os preços domésticos.
3. Safra recorde de grãos no Brasil
A colheita abundante de soja e milho, aliada ao clima favorável, derrubou os preços no campo. O impacto foi sentido nos índices de atacado, que pesam mais da metade do IGP-M.
Além disso, a manutenção da taxa Selic em nível restritivo (ainda acima de 14% ao ano) ajuda a conter a demanda agregada e a inflação de serviços, embora esse efeito seja mais indireto sobre o IGP-M.
Impacto direto nos contratos de aluguel
A maioria dos contratos de locação residencial e comercial no Brasil ainda utiliza o IGP-M como referência para reajuste anual. Com a deflação acumulada, muitos inquilinos poderão ter reajustes nulos ou até negativos nos próximos meses, dependendo da data de aniversário do contrato.
Para inquilinos
Quem tem contrato com vencimento entre maio e julho de 2025 já pode ter observado uma redução no valor do aluguel, algo raro nos últimos anos. Para contratos que ainda vencerão em 2025, a expectativa é de reajustes muito baixos, o que alivia o orçamento familiar em um momento de inflação ainda elevada em outros itens, como alimentação fora de casa e planos de saúde.
Para proprietários
A queda do IGP-M reduz a rentabilidade real dos imóveis alugados. Especialistas recomendam que proprietários considerem migrar para o IPCA nos novos contratos, já que o índice ao consumidor tende a ser mais estável e reflete melhor a inflação do dia a dia. Em 2025, o IPCA acumula alta de cerca de 3,5% no ano, bem acima do IGP-M.
Diferenças entre residencial e comercial
No segmento comercial, contratos mais longos frequentemente preveem cláusulas de revisão que combinam IGP-M e IPCA. A tendência de deflação no IGP-M pode beneficiar lojistas e pequenas empresas que enfrentam custos operacionais elevados. Por outro lado, proprietários de imóveis comerciais podem buscar negociar reajustes baseados em outros indicadores.
IGP-M versus IPCA: qual escolher?
O IGP-M é mais volátil porque incorpora preços no atacado e commodities, que oscilam rapidamente. Já o IPCA mede a inflação percebida pelo consumidor final e tende a ser mais previsível. Nos últimos dez anos, o IGP-M apresentou variância muito maior que o IPCA, com picos de inflação (como 2021, quando atingiu 17,78%) e períodos de deflação (como 2017 e agora 2025).
Para contratos de aluguel, a escolha do indexador depende do perfil das partes: proprietários geralmente preferem IGP-M em cenários de alta, mas em momentos de queda podem ser prejudicados; inquilinos, por sua vez, se beneficiam da deflação. Cada vez mais, novos contratos têm optado pelo IPCA ou por uma combinação (IPCA + porcentagem fixa), como forma de equilibrar riscos.
Perspectivas para os próximos meses
De acordo com projeções do mercado financeiro compiladas pelo Banco Central, o IGP-M deve encerrar 2025 com variação próxima de zero, podendo registrar o primeiro ano de deflação desde 2017. A continuidade da queda depende de fatores incertos, como a guerra comercial entre Estados Unidos e China, a política fiscal brasileira e os preços do petróleo.
Caso o cenário internacional se normalize e as commodities se recuperem, o índice pode voltar a subir no último trimestre. Porém, a maioria dos analistas aposta em estabilidade ou leve deflação no curto prazo. Para locadores e locatários, a recomendação é manter o acompanhamento mensal dos indicadores e utilizá-los como base para negociações transparentes.
Perguntas frequentes sobre a queda do IGP-M
- O que é o IGP-M?
- O Índice Geral de Preços – Mercado é calculado mensalmente pela FGV e mede a variação de preços em três etapas: atacado (IPA), consumo (IPC) e construção civil (INCC). É amplamente usado em contratos de aluguel e tarifas de serviços.
- Por que o IGP-M está caindo?
- Pelos preços mais baixos de commodities no mercado internacional, valorização do real e safra recorde de grãos no Brasil, que pressionam os preços no atacado para baixo.
- Como a queda do IGP-M afeta os inquilinos?
- Inquilinos com contratos indexados ao IGP-M podem ter reajustes menores ou até negativos nos próximos meses. Para contratos que venceram recentemente, é possível solicitar a aplicação do índice negativo, resultando em redução do valor do aluguel.
- O IGP-M pode voltar a subir?
- Sim, se houver choques de oferta, forte desvalorização cambial ou recuperação abrupta dos preços de commodities. Acompanhar o noticiário econômico é essencial.
- Qual a diferença entre IGP-M e IPCA para reajuste de aluguel?
- O IGP-M é mais volátil e influenciado pelo atacado; o IPCA reflete a inflação ao consumidor e é mais estável. Muitos contratos novos estão migrando para o IPCA como forma de previsibilidade.
- É possível negociar o índice do contrato durante a vigência?
- Sim, mediante acordo entre as partes. É comum, em momentos de grande oscilação, inquilinos e proprietários renegociarem o indexador ou aplicarem descontos, sempre por escrito.
Este artigo é meramente informativo e não substitui orientação profissional. Consulte um especialista para decisões financeiras.