Iranianos saem abalados e israelenses mais agressivos, diz professor

A escalada militar entre Irã e Israel em abril de 2025 representou um ponto de inflexão no frágil equilíbrio do Oriente Médio. Para analisar as consequências desse confronto inédito, o Zoom News ouviu o professor Carlos Mendes, doutor em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo (USP) e especialista em geopolítica do Oriente Médio. Em sua análise, o professor aponta que o saldo do conflito é desfavorável ao Irã e fortalece a postura de Israel.

Uma nova era de confronto direto

“O que vimos foi o fim de um tabu”, afirma o professor. “Desde a Revolução Islâmica de 1979, o Irã evitava um confronto direto com Israel, preferindo atuar por meio de seus proxies, como o Hezbollah no Líbano e os Houthis no Iêmen. O ataque com drones e mísseis deu ao Irã um palco, mas também expôs suas fragilidades.”

Segundo Carlos Mendes, a resposta israelense, precisa e cirúrgica, atingiu instalações militares e científicas iranianas, demonstrando uma capacidade de inteligência e alcance que surpreendeu os aiatolás. “Os iranianos saem abalados porque sua estratégia de dissuasão falhou. Eles mostraram que podem atacar, mas não que podem vencer ou se defender de uma retaliação eficaz.”

Israel mais fortalecido e agressivo

Do lado israelense, o professor destaca um sentimento de vitória e uma postura mais agressiva. “A coalizão de defesa montada por Israel, com apoio direto dos Estados Unidos, Reino Unido, França e Jordânia, conseguiu abater 99% dos projéteis. Isso deu a Israel uma vantagem estratégica e moral imensa. O governo de Benjamin Netanyahu vê agora uma janela de oportunidade única para reescrever as regras do jogo regional.”

Essa nova agressividade israelense, no entanto, não significa uma guerra total iminente. “Israel está mais forte e sabe disso, mas uma invasão terrestre ou uma campanha de bombardeio maciço contra o Irã teria custos altíssimos e não conta com o apoio total de Washington. A tendência é que Israel atue de forma cirúrgica, mas constante, degradando a capacidade iraniana ao longo do tempo”, completa o professor.

Impactos para o Brasil e o mundo

Para o Brasil, a crise no Oriente Médio acende um sinal de alerta. “O Brasil tem uma posição tradicional de defesa da diplomacia e da não intervenção. O governo Lula tentou manter a neutralidade, mas a escalada pressiona as relações comerciais, especialmente com os países árabes, e pode impactar o preço dos combustíveis. Além disso, a comunidade judaica e a imensa comunidade de origem libanesa no Brasil acompanham o conflito com apreensão.”

No cenário global, o professor acredita que o conflito desvia a atenção das grandes potências de outras crises. “A guerra na Ucrânia e a competição estratégica entre EUA e China ficam em segundo plano quando o Oriente Médio explode. A instabilidade na região afeta diretamente o mercado de petróleo e as rotas marítimas, como já vimos com os ataques no Mar Vermelho.”

Perspectivas para os próximos meses

Carlos Mendes conclui sua análise com uma perspectiva de “calma tensa”. “O cenário mais provável é o de uma guerra de baixa intensidade, com ataques cibernéticos, sabotagens e ações de proxies. O Irã evitará um novo confronto direto, enquanto Israel manterá sua postura agressiva para garantir a dissuasão. O papel da diplomacia brasileira e de organismos multilaterais como a ONU e o Brics será fundamental para evitar que o conflito saia do controle.”

Nossa Equipe

Carlos Mendes é professor de Relações Internacionais da USP e colunista do Zoom News. Doutor em Ciência Política, é especialista em geopolítica do Oriente Médio e política externa brasileira.

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