Julgamento sobre morte de Maradona é anulado após escândalo com juíza

A Câmara de Apelações e Garantias de San Isidro, na Argentina, anulou nesta semana o julgamento que buscava responsabilizar criminalmente os profissionais de saúde que atenderam Diego Armando Maradona em seus últimos dias de vida. A decisão foi motivada pela revelação de que a juíza María Laura Rodríguez, responsável pelo caso, manteve contatos extraoficiais com uma testemunha de acusação, comprometendo a imparcialidade do processo. O escândalo jogou nova luz sobre um dos casos mais emblemáticos da justiça argentina nos últimos anos.

O contexto da morte de Maradona

Diego Armando Maradona morreu em 25 de novembro de 2020, aos 60 anos, vítima de um edema pulmonar agravado por uma insuficiência cardíaca, enquanto se recuperava em sua casa em Tigre, nos arredores de Buenos Aires, após uma cirurgia para remover um hematoma subdural. Imediatamente após sua morte, surgiram suspeitas de negligência médica, levando o Ministério Público argentino a abrir uma investigação para apurar as circunstâncias do óbito.

A comoção foi imensa. considerado um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos, Maradona havia deixado uma marca indelével no esporte mundial, especialmente por sua atuação na conquista da Copa do Mundo de 1986. Sua morte repentina, em condições que muitos consideraram evitáveis, gerou uma enorme pressão sobre as autoridades para que os responsáveis fossem identificados e punidos.

Os profissionais de saúde acusados

Oito profissionais de saúde foram denunciados pelo crime de homicídio simples com dolo eventual. Entre eles estavam o neurocirurgião Leopoldo Luque, a psiquiatra Agustina Cosachov, o coordenador médico Carlos Díaz, o enfermeiro Pablo Cosi, o coordenador de enfermagem Mariano Perroni e outros integrantes da equipe multidisciplinar responsável pelos cuidados domiciliares do ex-jogador.

A acusação sustentava que a equipe médica agiu com negligência, deixando de prestar a assistência adequada a um paciente que apresentava claros sinais de deterioração clínica. De acordo com a promotoria, Maradona apresentava sintomas de abstinência alcoólica e problemas cardíacos que exigiam monitoramento intensivo, mas a equipe teria subestimado a gravidade de seu estado.

O julgamento e o escândalo com a juíza

O julgamento teve início em março de 2025, na cidade de San Isidro, Província de Buenos Aires, e atraiu atenção da mídia internacional. Durante as sessões, testemunhas foram ouvidas, laudos periciais foram apresentados e a defesa dos acusados contestou veementemente a tese de homicídio, argumentando que Maradona recebeu todos os cuidados médicos possíveis e que sua morte foi resultado de seu histórico de saúde complexo.

O ponto de virada veio quando uma investigação jornalística revelou que a juíza María Laura Rodríguez mantinha contatos privados com uma das testemunhas de acusação, trocando mensagens de texto e realizando encontros fora dos autos. As comunicações indicavam que a magistrada discutia aspectos do caso com a testemunha e, em algumas ocasiões, antecipava decisões processuais. A defesa dos réus imediatamente apresentou um pedido de suspeição, solicitando o afastamento da juíza e a anulação de todos os atos processuais praticados sob sua condução.

A decisão de anulação

Após analisar o recurso, a Câmara de Apelações e Garantias de San Isidro decidiu, por unanimidade, anular o julgamento. Na decisão, os magistrados destacaram que a imparcialidade do julgador é requisito essencial para a validade do processo e que a conduta da juíza Rodríguez gerou dúvidas objetivas sobre sua capacidade de conduzir o caso com a neutralidade exigida pelo Estado de Direito.

A corte determinou que todos os atos processuais realizados desde a fase de instrução fossem considerados inválidos e que um novo magistrado fosse designado para reiniciar o processo. A decisão representa um duro golpe nas expectativas de uma solução rápida para o caso que acompanha a Argentina desde o fim de 2020.

Reações à anulação

A decisão foi recebida com emoções contrastantes. Dalma e Gianinna Maradona, filhas do ex-jogador, expressaram indignação nas redes sociais. Em uma série de publicações, Dalma afirmou que a família não esperava por esse desfecho e que confiava na Justiça argentina para responsabilizar os culpados. Os advogados da família anunciaram que recorrerão da decisão às instâncias superiores.

Por outro lado, os advogados de defesa comemoraram a anulação. Em declaração à imprensa, um dos defensores afirmou que sempre confiaram na Justiça argentina e que a anulação é um passo importante para garantir que seus clientes tenham um julgamento justo e imparcial, livre de influências externas.

O que acontece agora

Com a anulação, o caso retorna à fase inicial. Um novo juiz será sorteado e deverá reavaliar as provas já coletadas para decidir se dá prosseguimento à ação penal. Isso significa que grande parte do trabalho realizado nos últimos meses terá que ser refeito, incluindo a oitiva de testemunhas e a análise de provas periciais.

Especialistas jurídicos ouvidos pela reportagem estimam que o novo processo pode levar de 12 a 18 meses para chegar a uma nova fase de julgamento. O caso continua sob intensa atenção da mídia e da opinião pública, tanto na Argentina quanto no exterior.

Implicações para o sistema judiciário argentino

O caso Maradona expõe fragilidades do sistema judiciário argentino quando submetido a processos de altíssima exposição midiática. A pressão por resultados rápidos e a comoção pública em torno da morte de um ídolo nacional criam um ambiente propício para desvios processuais.

O escândalo envolvendo a juíza Rodríguez também levanta questões mais amplas sobre os mecanismos de controle e transparência no judiciário. Organizações de defesa do Estado de Direito na Argentina já solicitaram ao Conselho da Magistratura uma investigação disciplinar sobre a conduta da magistrada, que pode resultar em sanções que vão desde advertência até a aposentadoria compulsória.

Perguntas frequentes sobre o caso

O que motivou a anulação do julgamento?

A descoberta de que a juíza María Laura Rodríguez manteve contatos extraoficiais com uma testemunha de acusação, comprometendo sua imparcialidade e a validade do processo.

Quem estava sendo julgado?

Oito profissionais de saúde acusados de homicídio simples com dolo eventual pela morte de Diego Maradona, incluindo médicos, enfermeiros e coordenadores da equipe de cuidados domiciliares.

O caso pode ser arquivado definitivamente?

Não. A anulação não significa absolvição nem arquivamento. O processo retornará à fase inicial e um novo juiz será designado para conduzir a investigação e decidir sobre o prosseguimento da ação penal.

Quanto tempo levará o novo julgamento?

Especialistas estimam entre 12 e 18 meses para que o caso chegue novamente a uma fase de julgamento, considerando a necessidade de refazer todas as etapas processuais.

O que aconteceu com a juíza Rodríguez?

Ela foi afastada do caso e pode responder a um processo disciplinar no Conselho da Magistratura argentino, que pode aplicar sanções que vão desde advertência até aposentadoria compulsória.

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