Lula propõe aprofundar relações econômicas e comerciais com o México

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva propôs, durante encontro com representantes do governo mexicano, um aprofundamento das relações econômicas e comerciais entre Brasil e México. A declaração ocorre em meio a esforços do governo brasileiro para fortalecer laços com parceiros estratégicos na América Latina e diversificar suas parcerias internacionais.

A proposta foi apresentada em reunião bilateral no Palácio Itamaraty, com a participação dos chanceleres e de ministros das áreas econômicas. Lula destacou que os dois países podem atuar juntos em setores estratégicos e que há vontade política para remover entraves burocráticos que ainda limitam o comércio bilateral.

Contexto das relações bilaterais

Brasil e México são as duas maiores economias da América Latina, mas o comércio bilateral sempre ficou aquém do potencial. Apesar de décadas de boas relações diplomáticas, barreiras tarifárias e regulatórias limitam o fluxo de mercadorias e investimentos. Lula defendeu a ampliação de acordos comerciais existentes e a eliminação gradual de obstáculos para impulsionar o intercâmbio.

O presidente também ressaltou a importância de coordenar posições em fóruns multilaterais como BRICS, CELAC e a OMC, especialmente em temas como reforma da governança global, mudanças climáticas e comércio justo.

As relações Brasil-México passaram por momentos de maior aproximação nas décadas de 1970 e 1980, quando ambos os países adotavam modelos de industrialização por substituição de importações. A abertura comercial dos anos 1990 e a assinatura do Acordo de Complementação Econômica nº 55 (ACE-55), em 2002, trouxeram novo dinamismo, mas a pauta comercial ainda é concentrada em poucos setores, com predomínio de manufaturas e baixa participação de serviços e bens de alto valor agregado.

Acordos comerciais em vigor

Atualmente, o comércio bilateral é regido pelo ACE-55, firmado no âmbito da Associação Latino‑Americana de Integração (ALADI). O acordo estabelece preferências tarifárias para cerca de 90% dos itens negociados, mas barreiras não tarifárias — como exigências sanitárias e fitossanitárias, licenciamentos e padrões técnicos divergentes — ainda dificultam o acesso a mercados. Brasil e México também participam de negociações entre o Mercosul e a Aliança do Pacífico, o que abre perspectivas de convergência regulatória e integração produtiva em escala regional.

Propostas de cooperação setorial

Entre as propostas apresentadas, Lula sugeriu parcerias em setores estratégicos como energia (incluindo biocombustíveis e petróleo), tecnologia e inovação, agronegócio e indústria automotiva. A integração de cadeias produtivas foi citada como forma de aumentar a competitividade de ambos os países no mercado global.

No setor automotivo, a possibilidade de complementar linhas de montagem e peças pode beneficiar tanto o Brasil quanto o México, que já possuem indústrias robustas. Atualmente, existem tarifas que encarecem a exportação de veículos leves entre os dois países; a redução dessas barreiras tornaria os produtos mais competitivos frente a concorrentes extra‑regionais.

Na área de energia, o Brasil é referência mundial em biocombustíveis, com tecnologia consolidada de produção de etanol de cana‑de‑açúcar e biodiesel. O México, por sua vez, busca diversificar sua matriz energética e pode se beneficiar de cooperação técnica e investimentos conjuntos em refinarias e infraestrutura de gás natural. O hidrogênio verde surge como uma fronteira de cooperação de longo prazo.

No agronegócio, o Brasil está entre os maiores exportadores mundiais de soja, carnes e café; o México é um grande importador desses produtos. A eliminação de barreiras sanitárias e a harmonização de regras fitossanitárias poderiam ampliar significativamente as vendas brasileiras, especialmente de carnes processadas e lácteos, além de abrir espaço para a exportação de máquinas agrícolas e insumos.

O setor farmacêutico e de saúde também foi mencionado como área de interesse mútuo, especialmente após a pandemia de covid‑19. Parcerias em pesquisa clínica, produção de vacinas e medicamentos genéricos podem ser incentivadas por meio de acordos de cooperação técnica entre agências reguladoras como a Anvisa e a Cofepris mexicana.

Comércio bilateral e oportunidades

Atualmente, o Brasil exporta para o México principalmente automóveis, autopeças, produtos siderúrgicos, alimentos processados e aeronaves. Já o México vende ao Brasil autopeças, eletrônicos, produtos químicos e bebidas. Há espaço para diversificar a pauta, incluindo serviços e investimentos em infraestrutura. O intercâmbio de serviços — tecnologia da informação, engenharia, turismo — ainda é tímido, mas representa uma fronteira promissora. O estoque de investimentos bilaterais está concentrado em poucas empresas; a criação de um acordo de facilitação de investimentos poderia estimular fluxos maiores.

Principais áreas com potencial de expansão:

  • Automotivo: integração de cadeias produtivas e redução de tarifas
  • Agronegócio: facilitação fitossanitária para grãos, carnes e laticínios
  • Energia: cooperação em biocombustíveis, petróleo, gás e hidrogênio verde
  • Tecnologia da informação: parcerias entre startups, fintechs e agritechs
  • Saúde: intercâmbio em fármacos, vacinas e equipamentos médicos
  • Educação: programas de intercâmbio acadêmico e reconhecimento mútuo de diplomas
  • Infraestrutura e logística: projetos integrados de transporte, portos e conectividade digital

Próximos passos

O governo brasileiro deve encaminhar propostas concretas nos próximos meses, incluindo missões empresariais e rodadas de negociação. O Itamaraty já anunciou a realização de uma rodada de negociações em setembro, em Brasília, com a participação de empresários e representantes dos dois governos. Está prevista também a visita do presidente mexicano ao Brasil ainda este ano, e as comissões bilaterais de comércio e investimento serão reativadas para tratar de temas específicos como regras sanitárias, propriedade intelectual e serviços.

A expectativa é que, com vontade política e mecanismos concretos de facilitação, o comércio bilateral possa crescer de forma consistente nos próximos anos, beneficiando consumidores e empresas dos dois lados.

Perguntas frequentes

Quais são os principais produtos exportados pelo Brasil para o México?
Automóveis, autopeças, produtos siderúrgicos, alimentos processados e aviões.

Como as relações comerciais podem ser ampliadas?
Através de acordos bilaterais, redução de tarifas, harmonização regulatória, maior integração logística e facilitação de investimentos.

Qual o papel do México na política externa brasileira?
O México é considerado um parceiro estratégico na América Latina e em fóruns multilaterais (G20, BRICS, CELAC), com grande potencial de cooperação em temas econômicos, políticos e de integração regional.

O que é o ACE-55 e qual sua importância?
O Acordo de Complementação Econômica nº 55, assinado no âmbito da ALADI, estabelece preferências tarifárias para a maioria dos produtos negociados entre Brasil e México, sendo o principal instrumento comercial bilateral vigente.

Como a proposta de Lula se insere na estratégia de política externa?
A iniciativa reforça a prioridade de fortalecer a cooperação Sul‑Sul e reduzir a dependência de mercados tradicionais, com o México visto como aliado‑chave para ampliar a presença brasileira na América do Norte e nas cadeias globais de valor.