Morre Abi-Rihan, voz que participou da história do rádio no Brasil

O rádio brasileiro perdeu uma de suas vozes mais marcantes. Abi-Rihan, locutor e jornalista cuja carreira acompanhou as principais transformações do país, faleceu recentemente aos 86 anos. Com mais de seis décadas de atuação, ele se tornou sinônimo de qualidade, emoção e credibilidade na radiodifusão nacional. Sua voz inconfundível marcou gerações de ouvintes e sua partida deixa uma lacuna imensa no mundo da comunicação.

Início da carreira

Nascido em uma cidade do interior de Minas Gerais, Abi-Rihan descobriu cedo a paixão pelo rádio. Ainda adolescente, costumava imitar os locutores que ouvia na Rádio Inconfidência e sonhava em um dia estar do outro lado do microfone. Sua oportunidade surgiu em 1956, em uma pequena emissora de Juiz de Fora, onde começou como auxiliar de estúdio e, rapidamente, passou a ler notícias e a comandar programas musicais.

O talento nato e a voz firme chamaram a atenção de radialistas mais experientes. No final dos anos 1950, ele se mudou para o Rio de Janeiro, então capital federal e centro da produção radiofônica. Foi contratado pela Rádio Nacional, a emissora mais poderosa do país na época. Ali, conviveu com grandes nomes como César Ladeira, Heron Domingues e Almirante, e aprimorou seu estilo de locução. Mais tarde, integrou as equipes da Rádio Tupi e da Rádio Globo, onde consolidou seu nome como um dos grandes locutores do Brasil. Em cada emissora, deixou sua marca: seja na narração de programas de variedades, na cobertura de grandes eventos ou na apresentação de noticiários.

Cobertura de momentos históricos

Abi-Rihan esteve presente na transmissão de episódios que entraram para a história do Brasil. Narrou a inauguração de Brasília, em 1960, com o entusiasmo de quem testemunhava o nascimento de uma nova capital. Acompanhou a renúncia de Jânio Quadros, em 1961, e os turbulentos anos que se seguiram. Sua voz esteve nas ruas durante os comícios das Diretas Já, em 1984, e na promulgação da Constituição de 1988. Sua capacidade de traduzir em palavras a emoção do momento fazia com que os ouvintes se sentissem dentro do acontecimento.

No futebol, foi um dos precursores da narração vibrante que hoje é marca do rádio esportivo brasileiro. Transmitiu Copas do Mundo (de 1970 a 2002), finais de campeonatos estaduais e nacionais, sempre com um entusiasmo contagiante. Os torcedores mais antigos ainda lembram de sua voz ecoando aos domingos, trazendo os gols e as jogadas com detalhes que pareciam pintar um quadro sonoro. Seu bordão "É gol do Brasil!" ficou gravado na memória afetiva de milhões.

Contribuição ao jornalismo e à cultura

Além da locução esportiva, Abi-Rihan também se destacou no radiojornalismo. Comandou programas de entrevistas, debates e análises políticas. Sua postura ética e seu compromisso com a informação de qualidade renderam-lhe o respeito de colegas e fontes. Ele acreditava que o rádio tinha o poder de educar e formar opinião, e usava sua voz para promover o debate democrático. Foi um dos primeiros a utilizar o formato de entrevista ao vivo com participação dos ouvintes, antecipando o que hoje se vê nas redes sociais.

Também atuou na formação de novos profissionais. Durante décadas, ministrou cursos e palestras em escolas de comunicação e na Associação Brasileira de Rádio e Televisão, compartilhando os segredos da locução, da produção radiofônica e da ética jornalística. Muitos dos locutores que hoje brilham no rádio brasileiro foram seus alunos ou se inspiraram em seu estilo. A "Escola Abi-Rihan de Locução" é reconhecida informalmente por sua ênfase na clareza, na emoção controlada e no respeito ao ouvinte.

Legado e homenagens

A notícia de sua morte gerou comoção em todo o país. Emissoras de rádio e televisão interromperam sua programação para prestar homenagens. O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio de Janeiro, a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT) e diversas personalidades da comunicação manifestaram pesar. Nas redes sociais, ouvintes e admiradores compartilharam relatos emocionados de como a voz de Abi-Rihan acompanhou suas vidas — do primeiro rádio de pilha ao aplicativo de streaming.

Seu legado, porém, não se apaga. A forma como ele inovou na arte de narrar, o respeito pelo ouvinte e a paixão pelo rádio continuarão a inspirar gerações futuras. Abi-Rihan será lembrado como um dos gigantes da comunicação brasileira, um verdadeiro patrimônio cultural do país. Seu nome já consta no Memorial da Radiodifusão Brasileira, e uma exposição em sua homenagem está sendo organizada pelo Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro.

Principais contribuições de Abi-Rihan

  • Modernização da locução esportiva: introduziu elementos de narrativa dramática que tornaram as transmissões mais envolventes.
  • Radiojornalismo investigativo: comandou séries de reportagens que revelaram esquemas de corrupção nos anos 1980.
  • Formação de novos talentos: mais de 200 profissionais foram treinados em seus cursos e mentorias.
  • Defesa da democratização da comunicação: participou ativamente de debates sobre a regulação da mídia e a liberdade de imprensa.
  • Preservação da memória do rádio: escreveu artigos e concedeu dezenas de entrevistas sobre a história da radiodifusão no Brasil.

Perguntas frequentes

  • Qual foi a causa da morte? A família não divulgou detalhes, apenas informou que ele faleceu de forma tranquila ao lado de parentes, em decorrência de complicações cardíacas.
  • Quantos anos Abi-Rihan tinha? Confirmou-se que ele tinha 86 anos.
  • Onde ele nasceu? Ele nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, e viveu a maior parte da vida no Rio de Janeiro.
  • Em quais emissoras trabalhou? Entre as principais estão Rádio Nacional, Rádio Tupi, Rádio Globo, Rádio Bandeirantes e Rádio Jornal do Brasil.
  • Ele recebeu prêmios? Sim, ao longo da carreira recebeu diversas honrarias, incluindo o Prêmio Comunique-se (categoria Locutor), o Troféu Roquette-Pinto e a Medalha do Mérito Jornalístico da Associação Brasileira de Imprensa.
  • Deixou filhos ou viúva? O locutor era casado há 60 anos com dona Marlene, e deixa três filhos, todos envolvidos com comunicação.
  • Onde posso ouvir gravações históricas dele? Acervos da Rádio Nacional e do Museu da Imagem e do Som disponibilizam trechos de suas narrações online.