Mulheres negras debatem justiça fiscal a partir da realidade econômica

O debate sobre justiça fiscal no Brasil tem ganhado novos contornos com a participação ativa de mulheres negras, que trazem para a mesa de discussão as desigualdades históricas e estruturais que marcam sua realidade econômica. Em um país onde a carga tributária impacta de forma desproporcional os mais pobres, entender a perspectiva desse grupo é fundamental para pensar uma reforma tributária verdadeiramente justa e inclusiva.

O Peso da Tributação sobre a Mulher Negra

A realidade econômica da mulher negra no Brasil é marcada por obstáculos estruturais que combinam gênero e raça. Dados de institutos de pesquisa como o IPEA e o IBGE apontam que mulheres negras estão entre as maiores vítimas da regressividade do sistema tributário brasileiro. O modelo atual, que tributa excessivamente o consumo e deixa praticamente intocadas as grandes rendas e os lucros, faz com que uma parcela desproporcional da renda desse grupo seja destinada ao pagamento de impostos indiretos, embutidos no preço de itens essenciais como alimentos, transporte e medicamentos.

A informalidade no mercado de trabalho, que atinge com mais força a população negra, especialmente as mulheres, agrava ainda mais este cenário. Sem acesso a mecanismos formais de dedução ou restituição, a carga tributária efetiva sobre essas trabalhadoras é elevadíssima, comprometendo o orçamento familiar e perpetuando o ciclo de pobreza. É a partir dessa realidade concreta que o grito por justiça fiscal se torna uma pauta urgente e interseccional.

Justiça Fiscal como Pauta Interseccional

A justiça fiscal, neste contexto, deixa de ser um tema exclusivo da macroeconomia para se tornar uma ferramenta central de combate ao racismo e ao sexismo. Coletivos e organizações de mulheres negras têm se debruçado cada vez mais sobre o tema, apontando como a ausência de um olhar interseccional na política tributária aprofunda as desigualdades já existentes.

A discussão envolve entender que um sistema tributário justo precisa levar em conta quem paga e quem se beneficia dos gastos públicos. Mulheres negras são as principais usuárias do sistema público de saúde e educação, e são também as que mais dependem de programas de transferência de renda. Portanto, a forma como o Estado arrecada e investe os recursos tem um impacto direto e profundo em suas vidas. A bandeira levantada é por um sistema progressivo, onde quem tem mais contribui mais, e onde o retorno em políticas públicas atenda às necessidades específicas das populações mais vulneráveis.

Propostas Defendidas

Dentro dos fóruns de debate e nas propostas de reforma tributária apoiadas por movimentos de mulheres negras, alguns pontos são recorrentes e fundamentais:

  • Taxação de grandes fortunas e heranças: A implementação de impostos progressivos sobre grandes patrimônios é vista como uma medida essencial para reduzir a concentração de riqueza e financiar políticas públicas.
  • Cashback e devolução de impostos: A criação de mecanismos que devolvam parte dos impostos pagos por famílias de baixa renda, especialmente sobre itens essenciais, é uma proposta prática para aliviar o peso da tributação sobre o consumo.
  • Desoneração da cesta básica: A redução ou eliminação de impostos sobre alimentos que compõem a dieta da população mais pobre é um passo direto para aumentar o poder de compra e a segurança alimentar.
  • Progressividade no Imposto de Renda: Aumentar o número de faixas e as alíquotas para os rendimentos mais altos, além de tributar lucros e dividendos, é uma pauta histórica que ganha força com o recorte racial e de gênero.

Iniciativas e Vozes do Movimento

Mulheres negras têm ocupado espaços acadêmicos, em conselhos de economia e em fóruns nacionais sobre o sistema tributário. Seminários, pesquisas e publicações têm sido realizados para dar visibilidade ao tema e pressionar por mudanças legislativas. A educação fiscal também é apontada como um pilar essencial. Iniciativas de base comunitária e cursos promovidos por organizações da sociedade civil buscam capacitar mulheres para entender e cobrar transparência e justiça na arrecadação e nos gastos públicos.

O ativismo digital e a presença em audiências públicas têm ampliado o alcance dessas demandas, conectando a luta antirracista à economia política. A mensagem central é que não é possível falar em desenvolvimento e redução de desigualdades no Brasil sem enfrentar o racismo estrutural e o machismo que moldam também o sistema tributário.

Perguntas Frequentes (FAQ)

O que é justiça fiscal?

Justiça fiscal é o princípio segundo o qual a carga tributária de um país deve ser distribuída de forma equitativa entre os cidadãos, respeitando sua capacidade contributiva. Um sistema justo tributa mais quem tem maior renda e patrimônio, e menos quem ganha menos, promovendo a redução das desigualdades sociais e econômicas.

Por que as mulheres negras são as mais afetadas pelo atual sistema tributário brasileiro?

Porque o sistema brasileiro é altamente regressivo, ou seja, tributa pesadamente o consumo, que consome uma parcela muito maior da renda das famílias de baixa renda. Como as mulheres negras são a maioria entre os mais pobres e chefiam grande parte das famílias de baixa renda, elas acabam pagando uma proporção maior de sua renda em impostos se comparadas a grupos mais ricos. A informalidade no trabalho e a menor remuneração média agravam esse impacto.

Quais são as principais propostas para reverter esse quadro?

As principais propostas incluem a taxação de grandes fortunas e heranças, o aumento da progressividade do Imposto de Renda (com isenção para quem ganha pouco e alíquotas maiores para altas rendas e lucros), a criação de um sistema de cashback que devolva impostos para a população de baixa renda e a desoneração de itens essenciais da cesta básica.

Como posso me informar mais sobre o assunto?

Você pode acompanhar as discussões sobre justiça fiscal, economia e políticas públicas através de organizações da sociedade civil especializadas no tema, acompanhando a cobertura da imprensa e participando de eventos e audiências públicas. No Zoom News, você encontra as principais notícias sobre Economia e Política que ajudam a entender o cenário fiscal brasileiro.