84 separatistas zambianos vão a julgamento por traição na Zâmbia

Em um dos maiores processos por traição da história recente da Zâmbia, 84 membros do movimento separatista de Barotseland foram levados ao Tribunal Superior do país, acusados de conspirar contra o Estado e tentar restaurar a independência da região. O caso, que teve início em 2017, continua a gerar debates sobre direitos humanos, autodeterminação e os limites da democracia no continente africano.

O contexto do separatismo em Barotseland

Barotseland é uma região histórica localizada no oeste da Zâmbia, que possui uma identidade cultural e política distinta. O território foi unido à Zâmbia (então Rodésia do Norte) por meio de um acordo assinado em 1964, o Barotseland Agreement 1964, que garantia certo grau de autonomia ao Reino Barotse. Para muitos barotses, esse acordo não foi cumprido pelo governo central de Lusaca, gerando décadas de frustração e reivindicações por maior autonomia ou independência total.

Nas últimas décadas, movimentos como o Linyungandambo (Conselho Nacional Barotse) e a Frente Patriótica Barotse (BPF) ganharam força, organizando protestos e campanhas pela secessão. O governo zambiano, no entanto, sempre tratou tais movimentos como uma ameaça à integridade territorial e à segurança nacional.

As acusações contra os 84 ativistas

Em julho de 2017, 84 pessoas foram presas em Mongu, capital da Província Ocidental, após confrontos com a polícia. Elas foram acusadas de traição, conspiração para fazer guerra contra a Zâmbia e tentativa de derrubar o governo. De acordo com a acusação, os réus estariam envolvidos em uma trama para declarar unilateralmente a independência de Barotseland e restaurar o reinado do Litunga (rei) com poderes absolutos.

A promotoria apresentou evidências que incluíam documentos, gravações e testemunhas que supostamente ligavam o grupo a atividades subversivas. A defesa, por sua vez, argumentou que os ativistas estavam exercendo seu direito legítimo à liberdade de expressão e à autodeterminação, e que as acusações eram uma tentativa do governo de silenciar a oposição.

O julgamento no Tribunal Superior da Zâmbia

O julgamento, realizado no Tribunal Superior de Mongu, atraiu a atenção de organizações internacionais de direitos humanos. A Anistia Internacional e a Human Rights Watch acompanharam de perto o caso, expressando preocupação com a possibilidade de pena de morte — que na Zâmbia é prevista para crimes de traição — e com as condições de detenção dos presos.

Ao longo dos anos, o processo enfrentou múltiplos adiamentos. A defesa alegou que os réus foram mantidos em condições desumanas e que o julgamento não estava sendo conduzido de forma justa. Em 2018, um dos acusados morreu sob custódia, o que gerou protestos e acusações de negligência por parte das autoridades penitenciárias.

Reações e implicações políticas

O caso dos 84 separatistas é visto como um teste para o sistema judiciário zambiano e para a maturidade democrática do país. Enquanto o governo de Edgar Lungu (e posteriormente de Hakainde Hichilema) defendeu a integridade territorial da Zâmbia, críticos apontaram que processos como este podem aprofundar as tensões regionais e alimentar o sentimento de perseguição entre os barotses.

Para analistas, a questão de Barotseland continua sendo uma ferida aberta na política zambiana. O não cumprimento do acordo de 1964 e a falta de diálogo com as lideranças tradicionais mantêm viva a chama do separatismo. O julgamento dos 84 ativistas, portanto, não é apenas um evento judicial, mas um reflexo das complexas relações étnicas e políticas que moldam a África Austral contemporânea.

Perguntas frequentes sobre o caso

O que é o movimento separatista de Barotseland?

É um movimento político e social que busca a independência ou autonomia da região histórica de Barotseland, localizada no oeste da Zâmbia, com base no acordo de 1964.

Quantas pessoas foram presas e acusadas?

Foram 84 pessoas, todas membros do movimento Linyungandambo e do Conselho Nacional Barotse. Elas foram presas em Mongu em 2017.

Qual a acusação específica contra eles?

A principal acusação é de traição, que na Zâmbia pode levar à pena de morte. Eles também foram acusados de conspiração para fazer guerra contra o Estado.

O julgamento já foi concluído?

O julgamento se arrastou por vários anos. O tribunal ouviu dezenas de testemunhas, mas o processo enfrentou sucessivos adiamentos. Em 2025, o caso continuava em andamento, com a defesa ainda apresentando seus argumentos.

Qual a posição do governo da Zâmbia?

O governo defende a integridade territorial e trata o movimento como uma ameaça separatista ilegal. No entanto, houve esforços de diálogo com lideranças tradicionais para resolver as queixas históricas.

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