Michael Jordan diz que Bobcats não vão 'tankar' e não acredita nessa estratégia

Em 2012, o Charlotte Bobcats viveu uma das piores temporadas da história da NBA, com apenas 7 vitórias em 66 jogos. Em meio a esse cenário, o proprietário da franquia, Michael Jordan, fez uma declaração que ecoou por toda a liga: "Nós não vamos tankar. Eu não acredito em tanking." A frase destacou a filosofia do ex-jogador, que sempre priorizou a competitividade e a cultura de vitórias.

O time de Charlotte estava em processo de reconstrução desde sua criação em 2004. Após algumas aparições nos playoffs, a equipe passou por uma reformulação e acumulava derrotas. Muitos torcedores e analistas viam no tanking uma oportunidade de garantir uma escolha de draft capaz de transformar a franquia, especialmente com talentos como Anthony Davis, Michael Kidd-Gilchrist e Bradley Beal na classe de 2012.

O contexto do Charlotte Bobcats

A franquia foi fundada em 2004 como uma expansão da NBA. Nos primeiros anos, conseguiu formar um time competitivo ao redor de jogadores como Gerald Wallace e Emeka Okafor, chegando aos playoffs em 2010. No entanto, a saída de peças-chave e decisões de gestão controversas levaram o time a um declínio acentuado. Na temporada 2011-12, encurtada pelo lockout, o Bobcats terminou com a pior campanha da história da liga, com aproveitamento de apenas 10,6%, o que gerou imensa pressão sobre a diretoria.

A torcida de Charlotte, que já havia perdido o antigo Hornets em 2002, ansiava por dias melhores. Muitos acreditavam que o caminho mais rápido para o sucesso seria acumular derrotas para conseguir a primeira escolha do draft. Com uma classe considerada forte, a possibilidade de selecionar Anthony Davis — um pivô dominante que havia levado Kentucky ao título universitário — parecia o bilhete premiado para reerguer a franquia.

A postura de Michael Jordan

Jordan, conhecido por sua mentalidade implacável nas quadras, não aceitava a ideia de perder de propósito. Em entrevista, ele argumentou que tankar prejudica o desenvolvimento dos jogadores e afasta a torcida. "Você não constrói um vencedor perdendo. Você constrói competindo todas as noites", disse. A declaração dividiu opiniões: alguns aplaudiram a postura ética, enquanto outros acharam a decisão ingênua do ponto de vista estratégico.

Para Jordan, o basquete sempre foi sobre dar o máximo em cada posse. Sua experiência de seis títulos com o Chicago Bulls o credenciava a opinar sobre o que é necessário para vencer. "Nunca entrei em quadra pensando em perder. Meus times davam tudo. Quero que o Bobcats tenha essa mesma mentalidade", completou. A declaração ocorreu em um momento em que vários times da NBA adotavam abertamente a estratégia de "tankar" para melhorar suas chances no draft, gerando críticas da liga e da mídia.

Tanking na NBA: prós e contras

O tanking é uma estratégia polêmica na NBA. Times como San Antonio Spurs (com Tim Duncan em 1997) e Cleveland Cavaliers (com LeBron James em 2003) tiveram sucesso ao utilizar essa tática, mas outros, como o Philadelphia 76ers, passaram anos acumulando derrotas sem garantia de título. A liga, preocupada com a integridade competitiva, reformou o sistema de loteria em 2019 para reduzir as vantagens de perder intencionalmente.

Entre os argumentos a favor do tanking, estão: a possibilidade de conseguir um jogador geracional que pode transformar uma franquia, a falta de mercado para atrair grandes agentes livres em cidades menores e a necessidade de renovar o elenco por meio do draft. Por outro lado, críticos apontam que a estratégia degrada a qualidade do produto, afasta os fãs e cria uma cultura perdedora que pode ser difícil de reverter.

A loteria da NBA, que distribui as primeiras escolhas entre os piores times, foi desenhada para desencorajar a derrota intencional. No entanto, o sistema antigo dava vantagens enormes aos times com os piores recordes. Com as mudanças de 2019, os três piores times passaram a ter iguais chances de ficar com a primeira escolha (14% cada), reduzindo o incentivo para ser o pior de todos.

Escolhas de draft e o destino da franquia

No draft de 2012, o New Orleans Hornets ficou com a primeira escolha e selecionou Anthony Davis, que se tornou um dos melhores jogadores da NBA, campeão em 2020 e MVP de finais. O Bobcats, com a segunda escolha, pegou Michael Kidd-Gilchrist, um ala promissor vindo de Kentucky. Infelizmente, MKG nunca desenvolveu um arremesso confiável e sua carreira não atingiu o estrelato esperado.

Muitos analistas apontam que, se o Bobcats tivesse "tankado" um pouco mais e conseguido a primeira escolha, a história da franquia poderia ter sido completamente diferente. Davis lideraria o time e talvez Charlotte nunca tivesse mudado de nome para Hornets. No entanto, Jordan nunca expressou arrependimento. Em anos posteriores, o time fez escolhas como Cody Zeller, Malik Monk e Miles Bridges — acertos e erros que fazem parte da reconstrução.

Após a temporada 2011-12, o Bobcats melhorou gradualmente, voltando aos playoffs em 2014, com um elenco liderado por Al Jefferson e Kemba Walker. A franquia foi rebatizada como Charlotte Hornets em 2014, recuperando o nome histórico. Entre 2014 e 2016, o time chegou aos playoffs duas vezes, mas não passou da primeira rodada. Desde então, viveu anos de altos e baixos, sem conseguir se firmar como contendora.

O legado da declaração de Jordan

A influência de Jordan no vestiário e nas decisões de basquete sempre foi grande. Como proprietário, ele participava ativamente das escolhas de draft e contratações. Sua experiência de seis títulos com o Chicago Bulls o credenciava a opinar sobre o que é necessário para vencer. No entanto, sua gestão à frente do Bobcats/Hornets foi alvo de críticas, com algumas escolhas questionáveis. Ainda assim, sua recusa ao tanking permanece um capítulo marcante de sua trajetória como dirigente.

Para Jordan, o tanking nunca foi uma opção porque isso iria contra tudo que ele representou como jogador. "Eu sei que tem times que fizeram isso e tiveram sucesso. Mas não consigo olhar para meus jogadores e dizer: 'Vamos perder de propósito para pegar um garoto de 19 anos que pode ou não dar certo'. Isso não é liderança", disse em outra ocasião. Essa visão, embora respeitada, é frequentemente contrastada com os resultados práticos da franquia.

A postura de Jordan contra o tanking reflete sua personalidade competitiva e sua visão de longo prazo para a franquia. Independentemente dos resultados, sua declaração permanece como um exemplo de como a mentalidade de um proprietário pode influenciar o rumo de uma equipe. O debate sobre tanking continua vivo na NBA, mas a posição de Jordan é um lembrete de que o esporte é sobre competir, não sobre perder de propósito.

Pontos-chave

  • Filosofia de competição: Jordan acredita que perder intencionalmente corrompe o espírito esportivo e afasta os fãs.
  • Cenário de 2012: Bobcats teve a pior campanha da história (7-59) e segunda escolha no draft, mas não tankou.
  • Draft e consequências: Anthony Davis (primeira escolha) tornou-se superstar; Michael Kidd-Gilchrist não atingiu o mesmo nível.
  • Mudanças na NBA: A liga reformou a loteria em 2019 para reduzir os incentivos ao tanking.
  • Resultados da franquia: Hornets teve alguns playoffs, mas nunca avançou; gestão de Jordan foi mista.

Perguntas frequentes sobre tanking

O que é tanking na NBA? É a estratégia deliberada de perder jogos para melhorar as chances de obter escolhas altas no draft. Geralmente, times em reconstrução adotam essa tática quando acreditam que a classe de draft é forte.

Michael Jordan estava certo em não tankar? Depende da perspectiva. Em termos de draft, ele perdeu a chance de selecionar Anthony Davis, mas manteve a integridade esportiva e a cultura de competição. Analistas divergem se a decisão foi melhor para o time a longo prazo.

Quais times tiveram sucesso com tanking? San Antonio Spurs (Tim Duncan, 1997), Cleveland Cavaliers (LeBron James, 2003) e, mais recentemente, Philadelphia 76ers (Joel Embiid, Ben Simmons). No entanto, muitos times que tankaram não conseguiram se tornar campeões.

A NBA conseguiu acabar com o tanking? Não completamente, mas as reformas na loteria do draft, implementadas em 2019, reduziram os incentivos para perder de propósito, nivelando as probabilidades entre os piores times. Mesmo assim, times ainda podem optar por não montar elencos competitivos para melhorar suas chances.

Como foi a gestão de Michael Jordan como dono? Jordan foi proprietário do Bobcats/Hornets de 2010 a 2023 (vendeu participação majoritária em 2023). Sua gestão teve altos e baixos: conseguiu alguns playoffs, mas também cometeu erros em draft e contratações. Sua recusa ao tanking é um dos traços marcantes de sua filosofia.