Líder do Taliban é reportado como morto novamente

Novos relatos de bastidores provenientes de fontes próximas à liderança do Taliban indicam que o líder supremo, Hibatullah Akhundzada, pode ter morrido. A informação, ainda não confirmada oficialmente pelo grupo, reacende uma interrogação que já havia surgido em anos anteriores e que, desta vez, encontra um contexto de maior tensão interna e pressão externa sobre o regime de Cabul. A ausência total de aparições públicas e a falta de pronunciamentos recentes do líder alimentam as especulações de que algo grave pode ter ocorrido.

O Taliban não se pronunciou oficialmente até o momento. A falta de comunicação contrasta com episódios passados, nos quais áudios atribuídos a Akhundzada foram divulgados semanas após os boatos iniciais para negar as mortes. Desta vez, o silêncio é mais prolongado, gerando ainda mais incertezas dentro e fora do Afeganistão.

Quem é Hibatullah Akhundzada?

Hibatullah Akhundzada tornou-se líder do Taliban em maio de 2016, depois que um ataque de drone dos Estados Unidos matou seu antecessor, o Mulá Mansour. Diferentemente de comandantes históricos como o Mulá Omar e o próprio Mansour, Akhundzada não era um líder militar, mas sim um religioso e juiz islâmico (qazi) que atuava como chefe do sistema judicial do grupo. Sua ascensão foi vista como uma tentativa de equilibrar as diversas facções do movimento e dar mais peso à jurisprudência religiosa na tomada de decisões.

Durante seu comando, Akhundzada supervisionou a transição do Taliban de uma insurgência armada para o governo de facto do Afeganistão. No entanto, jamais apareceu em público após a tomada de Cabul em agosto de 2021. Rumores de que ele estaria doente ou teria sido morto em confrontos internos são frequentes, mas nenhum foi comprovado de forma independente. Sua liderança sempre foi exercida de forma remota, por meio de conselheiros e comunicados escritos.

Cronologia dos rumores de morte

Esta não é a primeira vez que a morte de Akhundzada é noticiada. Confira os principais episódios:

  • 2020: Circularam relatos não confirmados de que Akhundzada teria falecido devido a complicações da COVID-19. O Taliban negou publicamente por meio de notas.
  • 2021: Após a tomada de Cabul, especulou-se que o líder estaria gravemente doente e que a liderança já estaria sendo exercida por seus subordinados.
  • 2023: Novas suspeitas surgiram quando Akhundzada não apareceu em nenhuma cerimônia pública após o terremoto no Afeganistão. O grupo divulgou um áudio atribuído a ele meses depois.
  • Julho de 2025: Fontes diplomáticas e de inteligência regional afirmam que Akhundzada pode ter falecido nas últimas semanas, sem que o grupo tenha emitido qualquer declaração oficial.

A recorrência dos boatos evidencia o secretismo extremo que cerca a liderança do Taliban e a dificuldade de se obter informações verificáveis sobre o Alto Conselho do grupo.

Disputa interna pelo poder: as facções em jogo

A morte do líder supremo abriria imediatamente uma disputa sucessória entre pelo menos duas grandes facções:

Mulá Yaqoob: Filho do fundador do Taliban, Mulá Mohammad Omar. Yaqoob comanda a ala militar e é visto como representante da linha mais tradicionalista, com forte base entre os comandantes do sul do Afeganistão. Ele defende uma visão mais nacionalista e avessa a concessões políticas aos países ocidentais, mas também busca reconhecimento internacional para estabilizar o regime.

Sirajuddin Haqqani: Líder da influente Rede Haqqani, uma facção do Taliban com laços históricos com a Al-Qaeda e grande capilaridade em áreas tribais. Haqqani é considerado mais pragmático em relação a negociações externas e já demonstrou disposição para diálogos com diplomatas estrangeiros. No entanto, sua rede é designada como organização terrorista pelos Estados Unidos, o que complica qualquer processo de reconhecimento.

A terceira via, menos provável, seria a ascensão de um nome de consenso, como o vice-primeiro-ministro Abdul Ghani Baradar, mas o poder real dentro do movimento está concentrado nas alas militar e de segurança, representadas por Yaqoob e Haqqani. Um racha entre essas duas facções poderia levar a conflitos armados internos e enfraquecer o controle do Taliban sobre o Afeganistão.

Impacto regional e implicações geopolíticas

A instabilidade na liderança do Taliban tem efeitos imediatos além das fronteiras afegãs. Países vizinhos e potências globais monitoram a situação de perto.

Paquistão: Historicamente o principal patrocinador do Taliban, o Paquistão vê o Afeganistão como espaço de profundidade estratégica. Um vácuo de poder poderia aumentar a presença de grupos terroristas antigos, como o Tehrik-i-Taliban Pakistan (TTP), e desestabilizar a região de fronteira.

China: Pequim tem investido em infraestrutura no Afeganistão como parte da Nova Rota da Seda. A estabilidade do regime talibã é importante para seus interesses econômicos e de segurança na Ásia Central. A China já sinalizou disposição para reconhecer o Taliban, mas aguarda garantias de controle territorial.

Irã e Rússia: Ambos mantêm relações pragmáticas com o Taliban, mas temem o transbordamento de violência para suas fronteiras e o aumento do tráfico de drogas e refugiados. Uma crise sucessória poderia agravar esses problemas.

Comunidade internacional: As negociações sobre o reconhecimento do governo Taliban e a liberação dos ativos congelados do Banco Central afegão (cerca de US$ 7 bilhões) já estavam estagnadas. Com a incerteza sobre a liderança, o processo tende a sofrer novos atrasos. Organizações humanitárias alertam que a falta de acordo pode agravar a fome e a pobreza que afetam cerca de 28 milhões de afegãos.

A ameaça do ISIS-K

O Estado Islâmico-Khorasan (ISIS-K), rival do Taliban, pode se beneficiar de qualquer fragilidade interna. O grupo extremista já realizou atentados de grande repercussão no Afeganistão e mantém células ativas em várias províncias. Um racha entre as facções talibãs abriria espaço para o ISIS-K expandir seu território e recrutar novos membros, especialmente entre aqueles insatisfeitos com a liderança moderada (no contexto talibã) que busca legitimidade internacional.

E agora? Possíveis cenários

  • Sucessão negociada: As facções chegam a um acordo rápido, nomeando um novo líder consensual (como Yaqoob ou Haqqani) e mantendo a unidade do grupo. Esse é o cenário menos traumático, mas difícil de ser alcançado dado o histórico de rivalidades.
  • Divisão formal: O Taliban se divide em duas ou mais facções, cada uma controlando partes do território afegão, repetindo o cenário da guerra civil dos anos 1990.
  • Caos administrativo: A ausência de uma liderança clara leva ao colapso parcial do governo, com províncias se tornando feudos independentes e a economia afegã paralisada. A crise humanitária se aprofunda.

Perguntas Frequentes (FAQ)

  • O Taliban confirmou a morte do líder? Não. Até a publicação desta matéria, o grupo não emitiu nenhum comunicado oficial confirmando ou negando os rumores mais recentes.
  • Por que há tanta especulação? O Taliban é uma organização extremamente fechada. Akhundzada nunca foi filmado ou fotografado publicamente após 2021. A ausência de pronunciamentos recentes e a falta de transparência sobre sua saúde geram um vácuo de informação que alimenta todas as teorias.
  • Quem pode assumir a liderança? Os nomes mais fortes são Mulá Yaqoob (ala militar tradicionalista) e Sirajuddin Haqqani (Rede Haqqani). Há ainda a possibilidade de uma liderança coletiva ou de um nome de consenso, como Abdul Ghani Baradar.
  • O que a comunidade internacional pode fazer? Os países ocidentais, em especial os Estados Unidos, mantêm uma política de engajamento mínimo. Dificilmente haverá reconhecimento diplomático do Taliban enquanto não houver clareza sobre a liderança. A Organização das Nações Unidas (ONU) pode tentar mediar uma transição ordenada, mas sua capacidade de influência é limitada.
  • Como a situação afeta a população afegã? A incerteza política pode agravar ainda mais a crise econômica e humanitária. A interrupção da ajuda internacional, o aumento da insegurança alimentar e a possibilidade de conflitos internos são os maiores riscos para os civis.
  • Existe algum risco de o Taliban usar armas nucleares ou químicas? O Taliban não possui arsenal nuclear nem capacidade significativa de armas de destruição em massa. O maior risco é a desintegração do controle central e o fortalecimento de grupos terroristas que possam usar o território afegão para planejar ataques.

O Zoom News continuará acompanhando os desdobramentos dessa história e trará novas informações assim que fontes oficiais se manifestarem. Enquanto isso, a recomendação dos analistas é de cautela: no mundo da informação talibã, a ausência de notícias nem sempre significa que tudo está calmo.