Nível de emprego resiste a impacto do juro alto, dizem especialistas

A economia brasileira enfrenta um dos ciclos mais agressivos de aperto monetário dos últimos anos, com a taxa Selic mantida em patamar elevado por vários meses consecutivos. Contrariando as expectativas de muitos analistas, o mercado de trabalho tem demonstrado uma resiliência notável. Especialistas consultados pelo Zoom News apontam que o nível de emprego resiste ao impacto do juro alto por uma combinação de fatores como ciclos defasados, mudanças estruturais no mercado de trabalho e suporte de políticas públicas.

Cenário de juros elevados

O Banco Central do Brasil promoveu uma série de aumentos na Selic entre 2022 e 2023, elevando a taxa de 2% para 13,75% ao ano, com o objetivo de conter a inflação. Desde então, a taxa permaneceu em dois dígitos, gerando desaceleração na atividade econômica. Setores como indústria e comércio sentiram a redução da demanda, mas o mercado de trabalho não apresentou uma deterioração tão acentuada como em ciclos anteriores. Especialistas destacam que, historicamente, o desemprego tende a aumentar de 6 a 12 meses após a alta dos juros, mas esse efeito ainda não se materializou plenamente.

Resiliência do mercado de trabalho

De acordo com os dados mais recentes do IBGE, a taxa de desemprego no Brasil encontra-se em torno de um dígito, próxima dos menores níveis desde o início da série histórica. O número de trabalhadores ocupados ultrapassou 99 milhões, impulsionado principalmente pelo setor de serviços, que responde pela maior parte das contratações. A construção civil também tem gerado vagas, beneficiada por programas habitacionais e investimentos em infraestrutura. A informalidade, apesar de ainda elevada, recuou levemente, indicando que parte dos trabalhadores está encontrando ocupação na economia formal.

Fatores que explicam a resistência

Os economistas ouvidos pela reportagem elencam várias razões para essa resiliência. Primeiro, o mercado de trabalho opera com defasagem: demora para as empresas ajustarem o quadro de funcionários após mudanças na política econômica. Segundo, a escassez de mão de obra qualificada faz com que empresas evitem demissões para não perder talentos. Terceiro, o fortalecimento do mercado de trabalho feminino e a maior participação de jovens sustentam a oferta de ocupações. Quarto, programas como o Auxílio Brasil e o aumento real do salário mínimo injetam renda na economia e mantêm o consumo das famílias. Por fim, o crédito consignado e a liberação do FGTS permitem que trabalhadores endividados evitem a inadimplência e permaneçam no emprego.

Visão dos especialistas

Carlos Mendes, economista-chefe da consultoria Macrovisão, afirma: “Estamos vendo um fenômeno interessante. O mercado de trabalho está resistindo mais do que o previsto. As empresas estão retendo funcionários porque sabem que será difícil contratar novamente quando a economia acelerar. Isso cria um piso para o emprego.” Já a professora Marina Silva, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), adota uma visão cautelosa: “O efeito completo da política monetária pode ainda estar por vir. Se os juros permanecerem altos por mais tempo, o desemprego pode aumentar moderadamente em 2025. Mas, por enquanto, o mercado de trabalho está surpreendendo.”

Perspectivas futuras

Para os próximos meses, a expectativa é de que o mercado de trabalho continue resiliente, embora com sinais de desaceleração. O Copom já iniciou um ciclo de cortes na Selic, mas a redução deve ser gradual, mantendo os juros ainda em patamar contracionista. A atividade econômica será influenciada por fatores como o cenário fiscal, o desempenho das exportações e a confiança dos empresários. A maioria dos analistas projeta que a taxa de desemprego deve encerrar 2025 em torno de 8%, ligeiramente acima do nível atual, mas ainda confortável se comparada a períodos anteriores.

Perguntas frequentes sobre emprego e juros altos

1. Por que o desemprego não subiu com a alta dos juros?

O efeito dos juros sobre o emprego ocorre com defasagem. Até 18 meses podem ser necessários para que o aperto monetário se reflita plenamente no mercado de trabalho. Além disso, fatores estruturais, como a dificuldade de contratar mão de obra qualificada, sustentam o nível de ocupação.

2. A informalidade explica a resiliência?

Sim, em parte. Muitos trabalhadores que perderam o emprego formal migraram para o trabalho informal, o que mantém a taxa de ocupação elevada, mas com piores condições. O IBGE capta essa informalidade e a inclui nos dados de trabalho, o que suaviza a queda nos postos formais.

3. Quais setores estão mais aquecidos?

Os setores de serviços, especialmente os presenciais (alimentação, beleza, transporte), e a construção civil lideram a geração de vagas. A indústria de transformação ainda enfrenta dificuldades, mas a tecnologia e a saúde também contratam bem.

4. O que pode mudar o cenário atual?

Uma piora no cenário fiscal, com aumento da dívida pública, pode elevar os juros futuros e atrasar a queda da Selic, prejudicando o emprego no médio prazo. Por outro lado, cortes mais rápidos nos juros podem impulsionar ainda mais o mercado de trabalho.