A ONU Mulheres e o Museu do Futebol, localizado no Estádio do Pacaembu, em São Paulo, anunciaram uma parceria inédita voltada à promoção da igualdade de gênero na cobertura jornalística da Copa do Mundo. A iniciativa, batizada de "Cobertura com Equidade", prevê capacitação de profissionais de imprensa, produção de conteúdo multimídia e debates sobre a presença feminina no esporte.
O acordo foi assinado na última quarta-feira (9) em cerimônia no auditório do museu, com a presença de representantes da ONU Mulheres Brasil, da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e de jornalistas esportivas convidadas. A ação se estenderá até o fim da próxima temporada de competições internacionais, abrangendo a Copa do Mundo Feminina e Masculina.
Objetivos da parceria
A parceria entre a ONU Mulheres e o Museu do Futebol tem como objetivo central combater a disparidade de gênero nas redações esportivas e na forma como o futebol feminino e masculino são retratados pela mídia. Entre os principais eixos da iniciativa estão:
- Capacitação profissional: cursos e workshops voltados a jornalistas, fotógrafos e comentaristas sobre abordagem com perspectiva de gênero;
- Produção de conteúdo: criação de reportagens, podcasts e materiais educativos que destaquem a trajetória de atletas, técnicas e dirigentes mulheres;
- Mapeamento da cobertura: pesquisa contínua sobre a presença feminina nos noticiários esportivos e recomendações para redações;
- Museu vivo: exposições temporárias e acervo digital com histórias de mulheres que marcaram o futebol brasileiro.
A representante da ONU Mulheres no Brasil, Ana Cristina Querino, destacou que a mídia exerce papel fundamental na construção de narrativas e na desconstrução de estereótipos. "Precisamos de mais mulheres narrando, comentando e decidindo pautas esportivas. O futebol é um dos maiores fenômenos culturais do país e sua cobertura ainda reflete desigualdades históricas que esta parceria busca transformar", afirmou durante o evento.
Atividades previstas
O programa "Cobertura com Equidade" terá início em agosto de 2025 com uma série de oficinas presenciais e online. As inscrições serão abertas ao público e priorizarão profissionais em início de carreira, estudantes de jornalismo e comunicadores populares. Serão oferecidas 200 vagas distribuídas em três módulos:
- Jornalismo Esportivo com Perspectiva de Gênero — fundamentos teóricos e análise crítica de pautas e fontes;
- Produção Audiovisual e Narrativas Inclusivas — técnicas de reportagem, roteiro e edição com foco em diversidade;
- Cobertura de Grandes Eventos — logística, ética e segurança para jornalistas em estádios e centros de imprensa.
Os participantes que concluírem os três módulos receberão certificado conjunto da ONU Mulheres e do Museu do Futebol. Além disso, os melhores projetos de reportagem serão selecionados para integrar uma exposição virtual no site do museu.
Contexto da desigualdade de gênero no jornalismo esportivo
Dados recentes do Instituto de Pesquisa DataEsporte mostram que as mulheres ocupam menos de 20% dos cargos de liderança em redações esportivas no Brasil. Nas transmissões ao vivo, a presença feminina como narradoras ou comentaristas principais ainda é rara, embora tenha crescido nos últimos anos com a profissionalização do futebol feminino.
Segundo levantamento da organização Women in Sport, apenas 15% das notícias esportivas veiculadas na mídia brasileira têm mulheres como protagonistas, e menos de 10% das fontes ouvidas em reportagens sobre futebol são do gênero feminino. A parceria entre ONU Mulheres e Museu do Futebol busca reverter esse quadro com ações concretas e mensuráveis.
O curador do Museu do Futebol, Daniela Alfonsi, ressaltou que a instituição já desenvolve há anos programas educativos sobre diversidade e inclusão. "O museu não é apenas um espaço de memória, mas também de reflexão sobre o presente. Trazer a ONU Mulheres para dentro dessa discussão é ampliar o papel social do futebol como ferramenta de transformação", explicou.
Impacto esperado e metas
A meta da parceria para o primeiro ano é capacitar diretamente 500 profissionais de comunicação em todo o Brasil, com atenção especial às regiões Norte e Nordeste. As atividades serão descentralizadas: parte das oficinas ocorrerá em estados parceiros, por intermédio de secretarias de cultura e universidades públicas.
Além da capacitação, será lançado um observatório virtual que monitorará a cobertura da Copa do Mundo e produzirá relatórios trimestrais com indicadores de equidade de gênero. Os relatórios serão públicos e poderão ser usados por redações, sindicatos e organizações da sociedade civil como ferramenta de diagnóstico e planejamento.
Outra frente relevante é a criação de um banco de fontes especializadas em esporte, com ênfase em mulheres profissionais — técnicas, preparadoras físicas, dirigentes, árbitras e jornalistas. O banco estará disponível gratuitamente para veículos de imprensa, com o objetivo de ampliar a pluralidade de vozes na cobertura esportiva.
Próximos passos
A parceria ONU Mulheres e Museu do Futebol prevê um cronograma de ações até dezembro de 2026. Entre os próximos marcos estão:
- Agosto de 2025: lançamento do edital de bolsas para jornalistas em início de carreira;
- Setembro de 2025: início da primeira turma de capacitação presencial em São Paulo;
- Novembro de 2025: seminário internacional "Mulheres, Mídia e Esporte" com convidadas de países lusófonos;
- Março de 2026: divulgação do primeiro relatório do observatório de cobertura;
- Junho de 2026: exposição temporária "Elas em Campo" no Museu do Futebol durante a Copa do Mundo.
A expectativa das organizadoras é que o programa sirva de modelo para outras modalidades esportivas e inspire iniciativas semelhantes em estados e municípios. "Queremos que a cobertura esportiva brasileira seja referência mundial em equidade de gênero. Este é apenas o começo de uma caminhada que exige compromisso de todos — mídia, governos, clubes e torcedores", concluiu Ana Cristina Querino.