Quase 60 milhões de brasileiros vivem em municípios com desenvolvimento baixo ou crítico

O Brasil é marcado por profundas desigualdades regionais que se refletem diretamente nos indicadores de desenvolvimento humano de suas cidades. Dados recentes do Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil apontam que cerca de 60 milhões de pessoas residem em municípios classificados com nível de desenvolvimento baixo ou crítico. O número equivale a quase 30% da população nacional e acende um alerta urgente sobre a eficácia das políticas públicas, a distribuição de recursos e os caminhos para reduzir o abismo social que ainda separa as diferentes regiões do país.

Este artigo analisa os critérios que definem o desenvolvimento municipal, as regiões mais afetadas, os principais gargalos em educação, saúde e infraestrutura, e as possíveis estratégias para reverter esse cenário.

O que define o desenvolvimento de um município?

O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) é a principal referência para classificar a qualidade de vida nas cidades brasileiras. Criado com base nos mesmos princípios do IDH global, ele combina três dimensões fundamentais:

  • Renda – renda per capita e capacidade de acesso a bens e serviços;
  • Educação – escolaridade da população adulta e fluxo escolar de crianças e jovens;
  • Saúde – expectativa de vida ao nascer e condições gerais de saneamento e saúde pública.

A classificação adotada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) divide os municípios em cinco faixas: muito alto (acima de 0,800), alto (0,700 a 0,799), médio (0,600 a 0,699), baixo (0,500 a 0,599) e crítico (abaixo de 0,500). Os cerca de 60 milhões de brasileiros que vivem em condições insatisfatórias estão concentrados justamente nas duas últimas faixas, onde o acesso a serviços básicos, educação de qualidade e oportunidades de trabalho formal ainda é extremamente limitado.

Onde estão os municípios com piores indicadores

As regiões Norte e Nordeste concentram a grande maioria das cidades com IDH-M baixo ou crítico. Estados como Maranhão, Pará, Alagoas, Piauí e Bahia apresentam os maiores contingentes populacionais nessas faixas. No Maranhão, por exemplo, mais de 60% dos municípios registram IDH-M abaixo de 0,600, reflexo de décadas de baixo investimento em infraestrutura, educação e saúde.

Em contraste, as regiões Sul e Sudeste, embora também possuam municípios com desafios sociais, concentram a maior parte das cidades com desenvolvimento médio, alto ou muito alto. A disparidade fica evidente quando se compara o IDH-M médio de cidades como São Paulo (0,805) e Florianópolis (0,847) com o de municípios do interior nordestino, que frequentemente não ultrapassam 0,550.

Dado relevante: Dos 5.570 municípios brasileiros, cerca de 1.200 encontram-se nas faixas de desenvolvimento baixo ou crítico, abrigando aproximadamente 60 milhões de pessoas, segundo estimativas com base nos censos demográficos e projeções populacionais.

Educação e saúde como gargalos estruturais

A educação é um dos principais fatores que mantêm os municípios presos ao baixo desenvolvimento. A taxa de analfabetismo em cidades do Norte e Nordeste ainda é significativamente superior à média nacional. Muitas crianças abandonam a escola cedo para trabalhar, e a oferta de ensino técnico e superior é praticamente inexistente em centenas de municípios.

Na saúde, a realidade é igualmente preocupante. A mortalidade infantil em cidades com desenvolvimento crítico chega a ser o triplo da registrada em municípios com alto IDH-M. A falta de saneamento básico, a desnutrição e o acesso precário a unidades de saúde agravam o quadro.

Infraestrutura e serviços básicos

O saneamento básico é um dos indicadores mais sensíveis. Milhões de brasileiros vivem sem água tratada, coleta de esgoto ou coleta regular de lixo. A ausência desses serviços impacta diretamente a saúde da população, a preservação ambiental e a atração de investimentos produtivos.

Além disso, a urbanização desordenada, com ocupações irregulares e falta de moradia adequada, é uma realidade comum nas periferias das grandes cidades e em municípios de pequeno porte das regiões mais pobres. A precariedade habitacional compromete a dignidade e a segurança das famílias.

Desenvolvimento econômico e geração de renda

Outro fator estrutural é a baixa atividade econômica formal. Municípios com desenvolvimento baixo ou crítico dependem fortemente de transferências de renda, como o Bolsa Família, e de empregos públicos. A base produtiva local é frágil, com predomínio da agricultura de subsistência, extrativismo e comércio informal.

A falta de oportunidades obriga milhões de jovens a migrar para centros urbanos em busca de trabalho e estudo, o que enfraquece ainda mais as cidades de origem. A ausência de arranjos produtivos locais e de políticas de estímulo ao empreendedorismo dificulta a criação de um ciclo virtuoso de desenvolvimento.

Caminhos para reverter o cenário

Especialistas apontam que a superação do baixo desenvolvimento exige uma combinação de políticas públicas coordenadas entre União, estados e municípios. Entre as principais estratégias estão:

  • Investimento em educação básica e profissionalizante: ampliar a permanência de crianças e jovens na escola, melhorar a formação de professores e oferecer cursos técnicos alinhados às vocações regionais.
  • Fortalecimento da atenção primária à saúde: expandir o programa Saúde da Família, construir unidades básicas e garantir acesso a medicamentos e exames básicos.
  • Universalização do saneamento básico: acelerar obras de água, esgoto e resíduos sólidos por meio de parcerias público-privadas e fundos setoriais.
  • Políticas de desenvolvimento regional: criar incentivos fiscais e linhas de crédito para empresas que se instalarem em cidades de baixo IDH-M, gerando emprego e renda.
  • Programas de habitação e urbanização: regularizar assentamentos precários e construir moradias dignas com infraestrutura completa.

O Brasil já demonstrou capacidade de avançar quando há vontade política e recursos bem aplicados. Entre 2000 e 2010, o país reduziu significativamente o número de municípios com IDH-M muito baixo, graças a políticas como a expansão do Bolsa Família, do Sistema Único de Saúde (SUS) e dos investimentos em educação. O desafio agora é retomar esse ritmo e garantir que nenhuma cidade fique para trás.

Perguntas frequentes (FAQ)

O que é o IDH-M e como ele é classificado?
O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) mede a qualidade de vida nos municípios brasileiros com base em três dimensões: renda, educação e saúde. As faixas de classificação são: muito alto (acima de 0,800), alto (0,700 a 0,799), médio (0,600 a 0,699), baixo (0,500 a 0,599) e crítico (abaixo de 0,500).
Quantos municípios brasileiros estão em situação crítica ou baixa?
Estima-se que cerca de 1.200 municípios brasileiros estejam nas faixas de desenvolvimento baixo ou crítico, abrigando aproximadamente 60 milhões de pessoas. A maioria dessas cidades está localizada nas regiões Norte e Nordeste.
Quais são as principais causas do baixo desenvolvimento nessas regiões?
As causas são múltiplas e interligadas: baixo investimento histórico em educação e saúde, infraestrutura de saneamento precária, falta de oportunidades de emprego formal, dependência de transferências de renda, fragilidade da base produtiva local e insuficiência de políticas públicas de desenvolvimento regional.
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