Reunião com secretário do Tesouro dos EUA foi cancelada, diz Haddad

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, confirmou na manhã desta sexta-feira (11) que a reunião bilateral que teria com o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, foi cancelada. O encontro, que estava previsto para ocorrer em Washington paralelamente ao Fórum de Finanças Globais do G20, era visto pela equipe econômica brasileira como uma janela decisiva para tentar reverter as tarifas de 50% impostas pela administração Donald Trump sobre as exportações brasileiras de aço, alumínio e etanol. O cancelamento pegou o mercado financeiro de surpresa e elevou o tom da tensão comercial entre os dois países.

O que motivou o cancelamento

De acordo com a comitiva brasileira, a decisão foi comunicada oficialmente pela embaixada dos Estados Unidos em Brasília na noite de quinta-feira. A justificativa apresentada foi um conflito de agenda do secretário Scott Bessent, que precisou se reunir com lideranças do Partido Republicano no Capitólio para discutir o avanço do pacote fiscal doméstico. Nos bastidores, a avaliação de diplomatas brasileiros é que o cancelamento reflete a postura intransigente da ala protecionista do governo Trump, que enxerga as tarifas como principal ferramenta de reindustrialização americana e não estaria disposta a abrir exceções para o Brasil neste momento.

O cenário das tarifas de Trump

Desde maio, as exportações brasileiras de aço e alumínio para os EUA enfrentam uma sobretaxa de 50%, uma medida que pegou o governo Lula de surpresa. O Brasil tentou negociações diretas com o Representante de Comércio Exterior (USTR) dos Estados Unidos, mas não obteve avanços concretos. A reunião com Bessent era a última esperança de um diálogo de alto nível antes que as medidas se consolidassem e provocassem perdas estruturais à indústria nacional. O setor siderúrgico brasileiro, que exporta cerca de US$ 3 bilhões por ano para os EUA, já começa a sentir os efeitos com a perda de contratos de longo prazo e a redução da margem de lucro. Além do aço, o etanol brasileiro também foi alvo, afetando diretamente o setor sucroalcooleiro e a balança comercial do agronegócio.

Impacto econômico e cambial

O anúncio do cancelamento provocou reação imediata no mercado financeiro. O dólar comercial disparou, chegando a ser negociado acima de R$ 5,54, maior patamar do ano. A Bolsa de Valores de São Paulo (B3) também registrou queda, com o Ibovespa reduzindo os ganhos do pregão. Para analistas, a notícia elimina temporariamente a expectativa de uma trégua comercial de curto prazo. "O mercado havia precificado um encontro positivo que poderia abrir caminho para negociações. Agora, a perspectiva é de continuidade do confronto, o que mantém o real desvalorizado e pressiona a inflação de insumos importados", afirma o economista-chefe de uma corretora paulista. A alta do dólar também impacta diretamente as decisões do Banco Central sobre a taxa Selic, aumentando a pressão por juros mais altos para conter a inflação.

A reação do governo brasileiro

Em declaração à imprensa, Haddad afirmou que o Brasil não vai se intimidar. "Vamos buscar outras vias diplomáticas e técnicas. O Itamaraty já foi acionado e uma representação formal na Organização Mundial do Comércio (OMC) será protocolada nos próximos dias", disse o ministro. Ele também anunciou que o governo estuda medidas retaliatórias proporcionais, que podem incluir a elevação de tarifas de importação sobre produtos farmacêuticos, tecnologia da informação e plásticos originários dos EUA. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi informado do ocorrido e determinou que a equipe econômica prepare um plano de contingência para proteger os setores mais afetados. A expectativa é que o Brasil também busque o apoio de países do Brics e da América Latina para fortalecer sua posição em fóruns multilaterais.

O papel do secretário do Tesouro dos EUA

Scott Bessent, secretário do Tesouro dos EUA, é o principal arquiteto da política econômica e financeira americana. Nomeado por Trump, ele é um defensor ferrenho do protecionismo e já declarou publicamente que as tarifas são uma ferramenta legítima para reequilibrar a balança comercial e financiar cortes de impostos domésticos. A recusa em se reunir com Haddad sinaliza, na avaliação de especialistas, que a equipe de Trump não tem intenção de ceder à pressão diplomática no curto prazo. Caberá ao Brasil encontrar novos canais de interlocução, seja por meio de contatos com o Congresso americano, com lobistas da indústria dos EUA que se opõem às tarifas, ou com aliados comerciais comuns que possam fazer a ponte com a Casa Branca.

Perguntas Frequentes (FAQ)

Por que a reunião de Haddad com Scott Bessent foi cancelada?

A justificativa oficial foi um conflito de agenda do secretário americano, que precisou se dedicar a pautas fiscais domésticas no Congresso. Nos bastidores, analistas apontam que o episódio reflete o endurecimento da política comercial dos EUA sob a gestão Trump e a baixa disposição para negociar exceções.

O que o Brasil pode fazer para reverter as tarifas de 50%?

O governo vai acionar a OMC para contestar as sobretaxas, embora o processo possa levar anos. No curto prazo, a estratégia é buscar um novo agendamento com Bessent ou com o USTR, além de retaliar produtos americanos para equilibrar a balança de pressões e forçar uma negociação.

Como o cancelamento afeta o câmbio e a inflação?

A incerteza gerada pelo cancelamento tende a manter o dólar elevado, o que encarece importações e pressiona a inflação. Isso pode impactar a decisão do Banco Central sobre a taxa básica de juros, a Selic, tornando-a mais cautelosa.

Há chance de uma nova reunião ser agendada?

Sim. O governo brasileiro trabalha nos bastidores para reagendar o encontro, mas admite que o timing não depende apenas da sua vontade. A janela de oportunidade ideal seria antes das eleições de meio de mandato nos EUA, quando o assunto pode ganhar ainda mais relevância política.

O Brasil pode receber apoio de outros países na OMC?

Sim. O Brasil conta com a solidariedade de países do Brics e da América Latina, que também foram alvos de tarifas americanas. Uma ação coordenada na OMC ou em fóruns multilaterais, como o G20, é uma possibilidade real e pode ampliar a pressão sobre os EUA.

Qual a importância do secretário do Tesouro dos EUA nesse contexto?

É o cargo máximo da política financeira americana, com influência direta sobre sanções econômicas, tarifas e relações fiscais internacionais. A capacidade de diálogo com ele é estratégica para qualquer país que deseje resolver disputas comerciais de alto nível.

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