Há exatos 120 anos nascia em Paris um dos pensadores mais influentes do século XX: Jean-Paul Sartre. Para celebrar seu legado de liberdade e engajamento, o Zoom News conversou com brasileiros que carregam o nome do filósofo e com estudiosos que mantêm viva a chama do existencialismo. O que significa ser livre hoje segundo a perspectiva sartriana?
A filosofia da liberdade radical
Jean-Paul Sartre foi o rosto do existencialismo no pós-guerra. Sua máxima "a existência precede a essência" inverteu a lógica filosófica tradicional. Para ele, o ser humano não possui uma natureza predefinida; ele é aquilo que ele se faz através de suas escolhas. Essa liberdade radical é, ao mesmo tempo, uma bênção e uma condenação. Condenados a ser livres, somos responsáveis não apenas por nós mesmos, mas por toda a humanidade, pois ao escolhermos, criamos a imagem do homem como ele deve ser.
Os xarás do filósofo
"Meu nome é João Paulo Sartre Oliveira, e minha vida inteira foi explicar que não sou parente, mas um 'xará' do filósofo", brinca o professor de sociologia. "Meu pai, um militante de esquerda nos anos 70, quis me dar um nome que simbolizasse a resistência e a luta pela liberdade." Assim como João Paulo, muitos brasileiros foram batizados em homenagem ao pensador francês. Para eles, o nome carrega um peso simbólico. "Carregar o nome Sartre é um convite constante à reflexão. Você é forçado a pensar sobre suas escolhas e sobre o mundo a sua volta. É um compromisso com a autenticidade", relata Maria de Fátima Sartre, uma advogada que defende causas sociais.
Engajamento e responsabilidade
Para Sartre, a liberdade não é um conceito abstrato. Ela se concretiza no engajamento. O filósofo foi um militante ativo, apoiou a independência da Argélia, criticou o imperialismo americano e a repressão soviética. Em palestras e seminários que marcam seu centenário, estudiosos destacam que a "liberdade sartriana" está intrinsecamente ligada à responsabilidade social e política. "Não adianta se dizer livre se você não age para transformar a realidade que oprime", argumenta o professor Carlos Alberto Mota, especialista em filosofia francesa. "Sartre nos lembra que a liberdade individual só tem sentido quando colocada a serviço da libertação coletiva."
Sartre no Brasil contemporâneo
Em tempos de polarização e debates sobre liberdade de expressão e autoritarismo, o pensamento de Sartre ressurge com força. Universidades e centros culturais têm promovido ciclos de estudo sobre "O Ser e o Nada" e "O Existencialismo é um Humanismo". A pergunta que ecoa é: como ser livre em uma sociedade de massas? Para os "xarás" de Sartre, a resposta está na recusa da má-fé e na assunção da responsabilidade individual e coletiva. "Sartre nos ensina que a esperança está na ação", finaliza João Paulo.
Perguntas frequentes sobre Sartre e o existencialismo
O que significa "a existência precede a essência"?
Esta é a premissa fundamental do existencialismo sartriano. Significa que o homem primeiro existe, se descobre, surge no mundo, e só depois se define. Diferente de um objeto, que é fabricado com uma finalidade (essência antes da existência), o ser humano constrói sua essência através de suas escolhas e ações.
O que é a "má-fé" (mauvaise foi)?
É a atitude de mentir para si mesmo, negando a própria liberdade e responsabilidade. A má-fé ocorre quando o indivíduo atribui suas ações a forças externas – a sociedade, a educação, a genética – para fugir da responsabilidade de escolher. Sartre nos convida a abandonar a má-fé e viver uma vida autêntica.
Como a liberdade pode ser uma "condenação"?
Para Sartre, estamos "condenados a ser livres". Não escolhemos nascer, não escolhemos o mundo em que vivemos, mas, uma vez aqui, somos totalmente responsáveis por nossos atos. Não há destino, natureza humana ou divindade que nos desculpe. A liberdade é o nosso fardo e a nossa grandeza.
Qual a relação entre Sartre e o engajamento político?
Sartre acreditava que o intelectual deve se engajar nas questões de seu tempo. Para ele, a escrita e o pensamento são formas de ação. Ele participou ativamente de movimentos políticos, acreditando que a filosofia deveria servir para transformar o mundo, e não apenas interpretá-lo. Sua vida foi um exemplo prático de seu pensamento.
Por que Sartre recusou o Prêmio Nobel?
Em 1964, Sartre recusou o Prêmio Nobel de Literatura. Sua justificativa foi a de que um escritor não deve se deixar transformar em instituição. Ele temia que o prêmio pudesse limitar sua independência e seu papel crítico na sociedade. Um gesto que demonstra, na prática, sua defesa intransigente da liberdade intelectual.