Servidor da Abin diz ao STF que Ramagem tinha sala no Planalto

Um servidor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) prestou depoimento ao Supremo Tribunal Federal (STF) nesta semana e afirmou que o ex-diretor da agência, Alexandre Ramagem, mantinha uma sala no Palácio do Planalto durante o governo de Jair Bolsonaro. A informação, obtida por fontes ligadas à investigação, reforça as suspeitas de que a estrutura da Abin foi utilizada para monitoramento ilegal de adversários políticos e interferência em processos eleitorais.

O teor do depoimento

De acordo com o depoente, a sala funcionava como uma espécie de base avançada dentro do Planalto, onde Ramagem se reunia com assessores próximos e membros do governo. O servidor afirmou que a existência do espaço não era de conhecimento geral da cúpula da Abin e que as atividades ali realizadas tinham caráter sigiloso. O depoimento durou mais de quatro horas e foi acompanhado por procuradores da Procuradoria-Geral da República.

O servidor também detalhou o fluxo de informações que chegavam à sala e como eram tratados os relatórios produzidos pela agência. Segundo ele, parte do material teria sido usado para instruir ações políticas e de comunicação do governo. A defesa de Ramagem nega as acusações e alega que o depoente não possui provas concretas.

Quem é Alexandre Ramagem

Delegado de Polícia Federal, Alexandre Ramagem foi diretor-geral da Abin entre julho de 2019 e março de 2022. Nomeado por Bolsonaro, ele é investigado em diversos inquéritos no STF, incluindo o que apura a suposta criação de uma "abin paralela" para monitorar autoridades. Ramagem também é alvo de investigações sobre a produção de dossiês contra opositores e interferência em processos eleitorais. Em 2022, sua casa foi alvo de busca e apreensão autorizada pelo STF.

Ramagem sempre negou irregularidades e afirmou que sua gestão foi técnica e transparente. No entanto, o depoimento do servidor coloca novas dúvidas sobre sua conduta, especialmente em relação ao uso político da agência.

A sala no Planalto e seu significado

A existência de uma sala no Palácio do Planalto ocupada pelo diretor da Abin levanta questionamentos sobre a proximidade entre o serviço de inteligência e o núcleo político do governo. Segundo o depoente, o espaço era usado para reuniões com assessores da Presidência e para receber informações sigilosas que não passavam pelos canais oficiais da agência. A localização privilegiada, dentro do centro do poder executivo, sugere que Ramagem gozava de acesso especial e proteção política.

Investigadores do STF consideram que a sala pode ter sido usada para coordenar ações de monitoramento de adversários, como parlamentares de oposição, jornalistas e ministros do próprio STF. A suspeita é que parte do material coletado pela Abin era levado diretamente ao Planalto, sem registro nos sistemas oficiais.

Investigações em andamento

O STF atualmente conduz ao menos três frentes de investigação que envolvem a Abin e Alexandre Ramagem:

  • Inquérito das milícias digitais – apura a atuação de grupos que disseminam desinformação e atacam instituições.
  • Inquérito da Abin paralela – investiga o uso da agência para monitorar ilegalmente autoridades e cidadãos.
  • Inquérito dos atos antidemocráticos – examina a participação de membros do governo nos ataques de 8 de janeiro de 2023.

O depoimento recente pode ajudar a conectar esses inquéritos e fornecer elementos para novas diligências. Na Câmara dos Deputados, uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) também investiga o tema, e o depoente pode ser convidado a prestar esclarecimentos.

Reações políticas

O conteúdo do depoimento gerou reações imediatas nos meios políticos. Parlamentares da oposição afirmaram que a revelação confirma a “instrumentalização” da Abin durante o governo Bolsonaro e pediram o aprofundamento das investigações. Já aliados do ex-presidente questionaram a credibilidade do servidor e apontaram motivações políticas no depoimento.

O senador Randolfe Rodrigues (sem partido-AP), vice-presidente da CPI da Abin, disse que a sala no Planalto é a “peça que faltava” para entender a articulação entre inteligência e política. “Esse depoimento mostra que a Abin foi usada como braço operacional de um projeto de poder”, afirmou. A defesa de Ramagem classificou o depoimento como “genérico” e “sem provas materiais”.

Perguntas frequentes

O que é a Abin?

A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) é o órgão responsável por produzir informações estratégicas para a tomada de decisões do governo federal. Ela atua na defesa de interesses nacionais e na prevenção de ameaças.

Por que a sala no Planalto é relevante?

A existência de uma sala reservada para o diretor da Abin dentro da sede do Executivo indica uma relação orgânica entre a inteligência e o núcleo do poder, o que pode ter facilitado o uso político da agência, fora dos controles legais.

O que pode acontecer com Ramagem?

As investigações podem resultar em denúncia formal por parte da PGR e, posteriormente, em ação penal no STF. Se condenado, Ramagem pode pegar prisão por crimes como violação de sigilo funcional, peculato e associação criminosa.

O depoente é confiável?

Cabe ao STF avaliar a credibilidade da testemunha. O servidor está protegido por medidas de segurança e seu depoimento foi gravado. A defesa de Ramagem terá direito ao contraditório.

Este artigo foi baseado em informações públicas e depoimentos reportados. A Zoom News acompanha o caso e trará atualizações à medida que novas informações forem divulgadas.